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A Vingança de Prometeu
 

Ensaio nº 19 * Parte C (as partes A e B estão abaixo)

- Pois é...Lembra que eu te falei que eu ia a São Paulo? Pois é: eu voltei ontem...Eu te liguei umas três vezes; deixei recado...

- Ah!, aqui em casa é uma loucura...Puxa, eu até comecei a ler o livro que você me indicou...

- Foi O Vermelho e o Negro, do Sthendal, não foi?

- Foi...

- Está gostando?

- Adorando...

- Eu amei aquele poema que você estava escrevendo...Nunca pensei que fosse encontrar alguém tão legal em uma livraria...

- A gente se engana...Mas para quem vai pouco a uma livraria, você lê bastante.

- Só os livros da aula de português...

- E você acha que é pouco? Eu acho o Machado de Assis um dos maiores escritores que conheço; mas vamos mudar de assunto: eu te liguei para te convidar para um grupo de leitura, que se reúne todas as quintas, na livraria. Eu vou ler um texto do André Gide amanhã.

- Nossa! Eu adoraria!

- ‘Tá combinado então? Eu posso passar na sua casa amanhã às 15:30?; ‘tá bom para você?

- Está, eu te espero...

- Um beijo...

- Outro...Olha, eu adorei você ter me ligado.

- Eu gostei muito de ter te conhecido. Pensei muito em você, - nessa viagem, – na conversa que a gente teve...A tarde voou, lembra?

- Claro...

- Amanhã a gente se vê.

- Certo.

- Alô; Flávio!; minha mãe está me chamando para ir ao supermercado com ela; a gente se fala outra hora...

- Mas gata, eu nem falei direito com você...

- Ah, Flávio...A gente tem tempo para conversar...Tchau querido, – eu preciso ir...

Acaba a ligação.



 Escrito por Nosferatu às 02h55 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 19 * Parte B ( a parte A está abaixo)

- Pera aí...

- Renata, é Paulo Otávio; a aê?; vamos para praia este final de semana? De novo?

- Paulo Otávio! – você ficou no jet ski o final de semana todo e além do mais, seus pais são muito chatos!

- Ah, minha linda... Eles não vão estar lá não; eu pensei na gente fazendo um fondue à noite...Só nós dois...

Silêncio.

- Nossa, ia ser lindo!...Mas você espera eu te ligar? Eu tenho que ver se eu não vou viajar com meus pais...

- ‘Tá; um beijão.

- Outro.

- Flávio, sou eu; essa conversa a gente já teve tantas vezes...

- Eu te juro! Eu mudei; estou até fazendo análise – minha mãe achou que eu estava precisando...

Outro silêncio.

- Eu tenho que pensar Flávio...Espera aí que tem outra ligação...

- Renata; é Rodrigo...

- Eu sei...

- Poxa, gata, passei aí sábado, na sua casa e você tinha saído...A gente tinha combinado...

- Olha Rodrigo: eu não estou numa fase boa, sabe? Eu estou pensando muitas coisas sobre minha vida...’Tá muito difícil, sabe? Dá um tempinho , meu querido...

 Mas Renata...

- Querido, me liga amanhã – eu estou de saída: minha tia já está me esperando na portaria...

- ‘Tá, tudo bem: eu te ligo amanhã...

- Tudo bem; um abraço.

- Um beijo.

- Flavio, sou eu...Meu lindo, eu estou muito satisfeita de te ver se cuidando. Eu sempre achei que você devia mesmo fazer análise, sabe?

- Pois é gata...Eu “to afim de mudar; eu já sinto que estou mudando...

- Gente!; esse telefone não pára! ‘Pera aí de novo...

- Boa tarde; eu queria falar com Renata.

- É ela...

- Tudo bem? Aqui quem fala é o Márcio Jr, da livraria...

- Márcio!...Você ficou de me ligar...Há quanto tempo...



 Escrito por Nosferatu às 02h54 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 19 * Parte A

Quarta à tarde, num apartamento, o telefone toca:

- Renata?

- Sim.

- É Flávio...Fala minha gata; e aê?, vamos ao cinema sábado?; está passando Cold Mountain de novo...

- Sabe o que é, Flávio?: eu tenho que estudar para prova...Você sabe que eu adoro este filme...’Pera um instantinho que tem outra ligação na linha...

- Renata, é Cláudio; e aê?; vão fazer um pedal, no final de semana?

- Quando!?

- No sábado...

Ah!, Cláudio; bicicleta de novo...

- Aí a gente vai até a torre de TV - o visual é manero...

- Olha, me liga amanhã; eu tenho que ver umas coisas em casa...Você sabe que eu te adoro, né?

- ‘Tá legal, gata; um beijo.

- Outro; tchau.

- Oi, sou eu; sabe Flávio, você é muito imprevisível: acha que eu estou sempre pronta para você: no sábado você passou aqui e me carregou para o shopping sem me ligar antes para saber se eu queria ir...

- Ah, gata...Eu ‘tava doido para te ver...Está tão difícil a gente se encontrar...

- Eu sei querido, mas...’Pera aí que tem outra ligação...

- Renata, é Eduardo, – da sua sala; – Fernanda me falou que você está precisando passar em história; se você quiser, no sábado eu estudo com você...

- Eduardo, você é uma gracinha, mas minha avó está no hospital – tadinha! – e eu preciso dar atenção a ela; se ela tiver alta até sexta...Eu te ligo meu lindo; você foi muito gentil...

- Tudo bem – me liga.

- ‘Tá; um beijão grande.

- Outro.

- Fala Flávio; olha, a gente já namorou e eu não agüentei o seu ciúme.

- Gata...Vai ser diferente agora; eu melhorei, sabia? Eu queria conversar com você.

- Eu não sei...Ai meu Deus!: outra ligação...

- Que saco!



 Escrito por Nosferatu às 02h53 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 18

 

Fazia duas semanas que Eunice trabalhava naquela casa de chá. Quando pequena – que com a família visitava o shopping – sonhava trabalhar naquele lugar. Se via como garçonete do Subway, balconista da C&A ou da sorveteria do MacDonald’s...Era, para ela, a própria Disneyworld  em cores, fantasia e diversão. Agora estava lá; havia alcançado seu sonho dourado: trabalhar no shopping da cidade! Estava, com razão, toda orgulhosa de sí.

Porém, a rotina diária do estabelecimento, mostrou-lhe uma realidade até então intangível: passou a se dar conta de um outro mundo que, da altura de seus dezoito anos, acreditava apenas existir no universo mágico da televisão: a clientela - senhoras vestidas em seda, sobre sapatos fechados de salto alto, cabelos armados, adornadas com uma infinidade de jóias deslumbrantes que brilhavam como o sol em meio a tantos outros brilhos de pedrarias que não acreditava poderem existir.

Adentravam à casa sempre depois das 17 horas para chás e biscoitos – finíssimos, que a casa fabricava – com amigas que se reuniam para o regozijo de suas almas atarefadas por horários com cabeleireiros, veterinários para seus cãezinhos, viagens ao exterior.

A decoração sofisticada ganhava dimensões assustadoramente aristocráticas com as clientes envoltas em uma aura de contenção esnobe e elegância – a altivez da postura era imperativa em todas:

- Você acredita que ela achava que a Faubourg Saint Honoré era a mesma rua que a Saint Honoré? Ela levou mais de meia hora para chegar na Chanel – tadinha: ela é muito desligada...

...

- Milão está um escândalo: a coleção primavera-verão...Eu quase comprei a Dolce-Gabanna inteira!

...

- Gente, eu quase morri quando ela sumiu na Eurodisney...Vocês não sabem pelo que eu passei...

...

Vez por outra uma jovem – porque casada recentemente – se permitia estar àquelas rodas como que num rito de passagem. Discretas, sentavam-se com suave modernidade – implícitas em suas roupas: o jeans da Diesel, encimando um par de escarpins em couro de avestruz, sempre importado...

Eventualmente crianças – alvas como a neve – em roupas multicoloridas, pululavam à volta de suas avós, com guloseimas de chocolate derretendo em suas mãozinhas tolas.

Aos poucos as diferenças foram marcando sua vida: na volta para sua casa, a sua realidade escandia o mundo de sonhos que era seu trabalho. Esta não ficava aparente para as freqüentadoras, pois sua patroa tratava de mantê-la com uniformes impecáveis e maquilagem suficiente para esconder a pele marcada pela vida rústica e pobre.

Porque o mundo tinha que ser assim?, pensava.

A inveja, a raiva, a revolta foram crescendo em sua alma; as diferenças foram se tornando insustentáveis até que – em momento pensado, em meio a uma festinha vespertina – não pensou duas vezes: envenenou o suco de mangustão sem dó nem piedade.

No outro dia, todos os jornais comentavam:”...e a autora do crime diz não ter havido motivações para tamanha tragédia...”

O mundo – indiferente ao acontecimento – continuou a girar impassivelmente, como que sem sentido...

 



 Escrito por Nosferatu às 21h20 [] [envie esta mensagem]



Crítica de Cinema - Alien vs. Predador

 

Tentei fazer o possível, mas ficar sem o que fazer nesse feriado me aguçou a vontade de assistir o mais novo subproduto da cultura de massas de Hollywood; um autêntico lixo cultural agora em embalagem de luxo: fotografia impecável, argumento que inclui civilizações antigas mais toda a tecnologia de roteiro, cenografia e efeitos especiais que a capital do cinema mundial acumulou nesses últimos anos. A princípio quis assistir para rir um pouco do lixo produzido; achava que ia encontrar um filme sem conteúdo, mas me surpreendí: é um filme para lá de machista – com todas as letras maiúsculas.

Começa a narrativa os cientistas descobrindo uma pirâmide (claro: para dar aquele ar de mistério que tanto sucesso garantiu para a série Indiana Jones) na Antártida (não tem mais onde fazer filme com terras desconhecidas – tem que ser lá mesmo!). Um mega-empresário se interessa e reúne a fina flor da pesquisa de risco do mundo, entre elas uma alpinista radical (meu Deus!: até quando vou ver essa cena alpinista-sem-cordas-em-risco-atendendo-telefone-celular-há-milhares-de-metros-acima-do-solo? – me poupe...). Nossa heroína é inflexível e tenaz: só faz o que as regras sugerem - impreterivelmente. Até aí tudo bem, mas o povo descobre que a pirâmide é um campo de treino e diversão dos predadores: eles foram atraídos para lá para servirem de incubadoras para filhotes de aliens que nascem para serem caçados e exterminados por aqueles.

Aí começa uma situação que poucos hão de perceber porque estão condicionados a verem os aliens como monstros-desalmados-que-merecem-morrer: uma alien-mãe é mantida acorrentada dentro da pirâmide (qualquer alusão a Prometeu acorrentado é mera coincidência...); sua função: colocar ovos para a brincadeira dos predadores – e ela está nessa situação há mais de 5.000 anos!!! Não é para ter pena, não?

Virou e mexeu e sai tudo errado: os homens da expedição morrem todos, os predadores não conseguem ter acesso às armas que destruiriam os aliens; morrem alguns deles. A situação de tensão máxima surge quando permanece vivos dentro da pirâmide um predador, a alpinista e a alien-mãe que não pára de colocar ovos (ué?, não foi para isto que ela foi acorrentada?; porque  reclamar?). Quando os filhotes nascem, sem o controle dos predadores o que eles vão fazer? Lógico e óbvio: libertar a mãe do cativeiro! (quem não faria no lugar dos oprimidos aliens?). Só que o cativeiro desta fêmea é tido como natural – ninguém é levado a questionar isso - e a libertação dela é vista como uma situação de terror: ela vem de bicho para cima dos dois!

 Já do lado da alpinista-seguidora-das-regras, ela faz um monte de ações corajosas, o predador assiste tudo e – na linguagem adolescente: paga pau para ela.

Fica então configurado que existem mulheres nascidas para o cativeiro que ficam à mercê dos interesses masculinos-despóticos e as mulheres que seguem as regras dos homens e, por isso, podem até despertar a admiração destes e ter uma vida melhor e digna.

Eu confesso que fiquei com pena dos aliens: retirados de seu habitat para carnificinas anti-ecológicas com requintes machistas de crueldade...É demais!

Termina o filme como um Godzilla deplorável: morre a pobre fêmea escravizada (por ousar se rebelar) junto com toda sua prole (de filhos fieis e amorosos). E a alpinista machista posando de gostosa...Porque eu continuo me torturando assistindo essas coisas?



 Escrito por Nosferatu às 22h45 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 17 Parte Dois e Final - A 1ª parte está abaixo.

Chega o café em copos americanos. Movimento contínuo, o balconista coloca o açucareiro de plástico transparente à frente – o estado dele era deplorável!

- Não tinha percebido que seus olhos eram verdes...(Está na hora da reunião; foda-se: a gata é um avião...). Ela sorri discretamente; remexe mais uma vez no cabelo – estou ganhando mais pontos...

- Você está indo para a loja?

- Estou...E você?

- Também...’Tô indo trabalhar, mas dá tempo para eu sentar um pouco e conversar. Às vezes dá até tempo de pegar uma fita. Hoje mesmo eu vou ao cinema...

- Que filme ‘tá passando?

- (Ai meu Deus, preciso lembrar de um filme romântico; rápido!). “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”.

- Que nome esquisito!

- É sobre um cara que apagaram as lembranças sobre a namorada dele, mas ele continuou amando sem saber porque...

- Nossa! Que lindo!

- É...O amor é mais forte que qualquer coisa, não acha?

- Como você pode falar disso? Mexe de novo nos cabelos.

- Já amei...

- Terminou? Porque?

- Ela terminou...Achava que ia encontrar alguém melhor.

- Boba ela...

- Também acho...Hoje eu tenho medo de gostar de alguém...

- Porque?

- Sofrer de novo – decepcionar.

- Vai depender de quem você escolher...

- Eu queria uma mulher inteligente, carinhosa, forte, companheira. Alguém que quisesse algo sério.

- E não tem ninguém não?

- Agora eu não sei...

...

- Você gostaria de ir ao cinema comigo?

- Não sei...A gente se conheceu agora à pouco...

- Olha: a gente vai para o shopping, fica conversando, toma um sorvete e aí, de repente, a gente assiste ao filme.

Fez que hesitava: - hum...’Tá legal, você me pega às seis?

- Fechado!

Dois beijinhos bem próximos da boca, uma troca de olhares e cada um vai para o seu lado. Tomei uma advertência por chegar meia hora atrasado na reunião, mas na outra semana eu estaria namorando com a garota do salto quinze...

 

 



 Escrito por Nosferatu às 01h33 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 17 Parte um

 

Três horas da tarde; atravesso uma avenida em meio a uma corredeira de gente sobre a faixa de pedestres. Semáforos, buzinas, ruídos de carros, de motocicletas – calor infernal.

Eu, no meu terno de segunda mão, me estrangulo na gravata de fecho éclair; olho para cima e vejo os pombos metropolitanos sobre os fios de alta tensão deste esgoto que é o centro.

Pressa: vou a uma reunião dos vendedores de enciclopédias – sou um deles - com o gerente da firma; as vendas estão caindo...

Alcanço a calçada; na correria, tropeço; caio no chão. Da sarjeta da rua vislumbro uma perna estonteante sobre um salto quinze.

- Desculpa aê...Não agüento e dou um sorriso maroto. Ela joga o cabelo levemente para trás, suspende o nariz e vira o rosto (ah!, a dissimulação feminina...É o que eu mais gosto...).

Levanto e fico olhando a loura se afastando, balançando os quadris para as laterais; - ela atravessa a rua – eu acompanho com o olhar.

Por um instante fatal a moça olha para trás – nossos olhares se fundem em um amálgama de tensão e desejo. Avanço em sua direção; sinto o medo de longe, transpirando através do tailleur da loja de cosmético próximo à nós – Pierre Alexander...

Atravesso a rua decidido; ela entra em uma lanchonete tipo copo sujo; eu já estou em seu encalço.

- Aê, Manel, me vê um café...Olho para ela – ela abaixa o olhar – remexe a bolsa nervosamente; está também sentada num banco fixo defronte ao balcão do estabelecimento. Paredes sujas, teias de aranhas, um senhor secular do outro lado de nós.

- Você aceita um café também?

- Não tomo café com estranhos...

- Se eu me apresentar não serei mais estranho; muito prazer: meu nome é Maicol. O seu nome é...

- Kelly Cristina...

- Bonito o nome...

- Obrigada, gracejou.

- Você trabalha ali em frente não é?

- Sim, como você sabe?

- A roupa...

- Nossa!, como você é observador!(Achei que já tinha ganho uns pontos – e de uma forma tão simplória...).



 Escrito por Nosferatu às 01h32 [] [envie esta mensagem]



Para um Estranho

 

Walt Whitman

 

Estranho que passas! tu não sabes com que ânsia eu te fito,

Tu deves aquele que eu andava procurando, ou aquela que eu andava procurando

(isso vem a mim como um sonho)

 

Com certeza eu já gozei em algum ponto do mundo uma vida de alegrias contigo,

 

Tu me diz que já cruzamos ombro a ombro, fluidos, ternos, castos, em plena maturação.

 

Tu cresceste comigo, foste um rapaz comigo ou uma moça comigo,

 

Eu já comi e dormi contigo; teu corpo desde então, não pertence somente a si, assim como o meu não ficou pertencendo mais somente a mim.

 

Quando passamos um pelo outro, tu me dás o prazer de teus olhos, do teu rosto, da tua carne, e eu retribuo com o prazer do meu peito, das minhas mãos ,da minha barba.

 

Eu não quero falar contigo, eu gosto é de pensar em ti quando estou sentado sozinho, ou acordado à noite sozinho.

 

Eu te esperarei, não tenho dúvida alguma de que vou te encontrar ainda.

 

E terei cuidado dessa vez para que não te perca.

 

 

 

 

 



 Escrito por Nosferatu às 17h01 [] [envie esta mensagem]



Reprise de um Texto

  Evita estava deslumbrante: seus olhos verdes contrastavam com o azul escandaloso daquele céu que nos protegia naquela tarde. O vento soprava célere inundando a atmosfera de movimento e apreensão. O silêncio apenas era quebrado pelos gritos secos - histéricos - das gaivotas que voavam aparvalhadas ao redor dos barcos pesqueiros avistados por nós, de cima do monte, à meia distância.

  Seu vestido de seda branco encobria timidamente seus seios firmes que me indicavam, através do tecido, que seu corpo sentia frio – isto me excitava...

  O sol mediterrâneo, em início de tarde, invadia todas as dobras e espaços contidos naquele cenário de outono. Nada era excessivo, apenas minha inquietude diante dela, que eu reconhecia, nos mínimos detalhes, que me amava.

  O mar plácido parecia estender desde o horizonte límpido até terminar na praia de uma pequena baía, limitada por montes encobertos de vegetação rala de um terreno inóspito; reconfortante, pois assegurava o distanciamento dos aglomerados urbanos.

  Meu coração enternecia com o seu sorriso enquanto falava. Sua voz roçava os meus tímpanos, acariciando lentamente.

  Do terraço do restaurante, aberto ao tempo, pedi o champanhe, - Laurent-Perrier, - o de sempre há sete anos. Num átimo o garçom retornou com duas taças e a garrafa no gelo. Envolveu-a com um lenço de linho e fez jorrar o líquido.

  Uma explosão de bolhas efervescentes transborda das taças num farfalhar delicado; o excesso escorre por entre as frestas da mesa de madeira. O líquido lentamente se assenta. Naquele instante supremo, achei que era feliz.

  Sua mão tocou a minha, convidando-me a beber. Meu coração acordou dos devaneios instantâneos e assim percebi, naquele momento eterno, que a amava...



 Escrito por Nosferatu às 21h05 [] [envie esta mensagem]



Posfácio a um Conto Recém Terminado

 

Pensei bastante em como terminar esse conto. Não tive dúvidas em ser essa a melhor maneira de terminá-lo já que a significação dos três personagens ficou bem estabelecida, para mim, em algum momento que eu escrevia.

Os três personagens representam as quatro estâncias do corpo humano: Luiz Henrique representa o corpo físico e o dos desejos; Miguel o corpo mental; e Hugo - o que chega por último – o corpo espiritual. Antes da chegada do Hugo, há um desequilíbrio nos dois personagens: marginalizados pela sociedade, Luiz Henrique entrega-se ao prazer sexual e não quer pensar; Miguel, sem um entendimento transcendente vai-se tornando um déspota assexuado. Hugo libera-se da servidão humana (que há em todos nós, cada um em seu grau e qualidade) e descobre a janela para uma transcendência – inicia então sua ascese. Este processo produz efeitos nas relações entre eles e internamente a eles. Mas toda busca espiritual subentende um afastamento das coisas seculares; assim Hugo - como corpo espiritual – volta-se para a transcendência enquanto Miguel e Luiz Henrique buscam a suas realizações em seus planos (material e mental).

Se os interesses de Hugo e dos outros se tornam divergentes, afastando-os fisicamente, em lembranças eles permanecem unidos. O amor pelo mundo e pelo semelhante que os dois passam a nutrir é a manifestação clara da presença do Criador no corpo espiritual – um resultado e uma causa dele.

Quanto à busca espiritual de Hugo, é claro que foi com Melina – o princípio feminino que faltava para a constituição da dialética cósmica. O caminho que iria trilhar há indícios em seu sonho (que é metafórico e cheio de significações) e na leitura do filósofo. Como à partir daí os caminhos tornam-se singulares para cada peregrino em busca da Verdade, a tentativa de universalização, por meio de palavras, seria pueril. Eu teria que juncionar as vidas de Buda, de João Batista e do Cristo, numa só pessoa, dentro de uma perspectiva do entendimento do Tao. Este pode ser outro projeto, mas preciso de MUITO chão  (mais muito mesmo!!!) para realizá-lo.   



 Escrito por Nosferatu às 00h44 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 09 Parte 56 - Epílogo

 

Nunca mais Miguel e Luiz Henrique tiveram notícias de Hugo: seus pais não mais atendiam as ligações dos garotos, – nem Igor, seu irmão dava qualquer informação.

Ambos entraram para o supletivo e no mesmo ano estavam na universidade – Miguel em comunicação, Henrique em engenharia mecânica.

Quando formaram, ambos conseguiram pós-graduação na Europa: um em jornalismo, em Lion – França – e o outro no Vale do Ruhr – Alemanha.

Miguel, neste período conheceu Calixto - um artista plástico com quem viveria até o fim de seus dias; Luiz Henrique conheceu Frida, - uma especialista em marketing na indústria onde, após o curso, ele continuaria a trabalhar, chegando à diretoria dela. Miguel, - para seu horror, - passaria a vida escrevendo comentários sobre política brasileira e música erudita, para o Le Figaro. Trabalhar num jornal de direita nunca desceu a sua garganta, mas o salário compensava...

O primeiro filho de Luiz Henrique chamar-se-ia Hugo – Miguel o batizaria. Encontravam-se inúmeras vezes durante o ano: Calixto e Frida davam-se muito bem...

Ambos passaram a nutrir um amor muito grande pelo que faziam – a amizade de tantos anos e o amor pelo mundo compensariam, com gratidão, a perda daquele que, meteoricamente, passou pelas suas vidas mudando o rumo de suas existências – definitivamente.

Às vezes que vieram ao Brasil perguntavam aos amigos pelo paradeiro de Hugo. Fantasiavam encontrá-lo nas ruas, numa lanchonete ou num cinema – mas o sentimento da perda havia de marcá-los por suas existências inteiras.

No fundo incomovada-os a discrepância de suas vidas e as posições de Hugo sobre o quotidiano e a vida em sociedade, - mas haveriam de acreditar que suas vidas na Terra não seriam em vão: tratariam, com dedicação, de tentar transformar seus pequenos mundos em algo amável e benéfico para os que o cercavam.

Houve uma ocasião em que lhes disseram que o havia visto em Porto de Galinhas, com uma mulher e uma criança, vendendo artesanatos nas ruas, mas, ao que tudo indicava, tratava-se de simples lenda...       



 Escrito por Nosferatu às 03h57 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 09 Parte 56

 

- Hugo, amanhã a gente vai embora, - e você?

- Eu decidi dar mais um tempo por aqui, - sei lá, - talvez mais uns dias...

- E a sua família, cara?

- Vou ligar para eles...

- Você quem sabe...

No outro dia, na arrumação do carro, havia uma atmosfera um pouco taciturna: primeiro porque era o fim de uma viagem que se tornou mais uma odisséia na vida de cada um; depois porque a permanência de Hugo não estava compreendida, - nem por ele... – ainda...

- Você acha que vai ficar bem aqui...Sozinho?

- Não vou ficar sozinho, - você sabe, - e além do mais, eu me viro: para voltar eu pego um ônibus em Parati e pronto.

Abraçaram-se forte – algo parecia morrer naquele instante: era um momento fúnebre, apesar de nenhum deles saber porque.

Por um tempo pequeno ainda avistaram, – pelo retrovisor, – Hugo, em pé, na rua principal, vendo-os afastar.

Uma curva se faz: some Hugo – Trindade fica para trás, mas resistiria em suas mentes para sempre...



 Escrito por Nosferatu às 02h26 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 09 Parte 55

 

Uma tarde no camping. Luiz Henrique volta do banho e encontra Hugo lendo sob uma árvore:

- Qual é cara!, lendo aqui?...

- Qual o problema?

- Férias...Não dá pra dar um tempo, não?

- Peguei esse livro na casa da tia de Melina – ‘Tô de cara com o escritor...

- Porque?

- Ele é um filósofo russo...russo, cara!; e escreve uma coisas maneras...O nome dele é Nicolai Berdiaiev.

- Nunca ouvi falar...Bicho; vão dar uma volta na vila - ‘tá anoitecendo...

Hugo não se importa com o que ele diz: - Olha só o que o cara escreveu: “Liberdade pressupõe a existência de um princípio espiritual que não é determinado pela natureza nem pela sociedade. Liberdade é um princípio espiritual no ser humano. Quando o ser humano é totalmente dominado pela natureza e pela sociedade nenhuma liberdade é possível”.

- Profundo e inconsciente; Luiz Henrique resolve brincar...

- Você pode gozar, mas tem umas coisas aqui que estão batendo com o que eu ando pensando...

- Levanta;  vão'bora – você vai terminar pirado deste jeito...

Luiz Henrique puxa o amigo para cima, ele cede e resolvem dar uma volta. 



 Escrito por Nosferatu às 02h22 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 09 Parte 54

 

Num certo dia, pela manhã, Hugo e Miguel esperam na fila do pão na padaria da vila:

- Bicho, nem parece que passou um mês; você ‘tá sabendo que final desta semana a gente vasa para Vitória...A gente ‘tava pensando em passar por Búzios e ficar uns dois dias lá...O que você acha?

- De repente...

- Qual foi?...Que cara é essa?

- Ah, cara...’Tá passando umas coisas na cabeça...

- Fala...

- ‘Tô a fim de ficar mais um tempo aqui...

- O que?!

- É isso aí...

- Porque?

- Eu não sei ainda o que eu quero fazer da vida...Queria pensar mais um pouco...Vem tanta coisa...Por esses dias então... - Você já pensou nisso?

- Claro!: Eu e o Henrique conversamos sobre isso esses dias; a gente vai se matar de estudar, dar um tempo das baladas para ir para a faculdade.

- Eu sei: esse é o certo – daqui a pouco conhecer alguém, casar, ter filhos, - bem você nem tanto, eu acho, - comprar uma casa ,depois outra na praia, depois outra nas montanhas; aí vem os netos...E por aí vai – até morrer.

- Cara, que drama você está fazendo!...

- Mas não sei se é isto que eu quero. Não é possível que a gente está neste mundo há quase um milhão de anos para fazer sempre a mesma coisa, século após século. Acho que o homem tem algo a mais para fazer.

- Hugo, você está pirando?

- ‘Tô de cara...e muito!, - mas tenho uns dias para pensar...

 

 



 Escrito por Nosferatu às 22h56 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 09 Parte 53

 

Tarde de sol, num bar da vila. Hugo e Luiz Henrique se divertiam com Melina e duas de suas amigas. Uma parecia muito interessada em Luiz Henrique; ele parecia deixar que as coisas fluíssem de uma forma diferente que a usual. Miguel tinha sumido, quando então reaparece:

- Fala aê gente!

- Onde você ‘tava, cara?

- Fomos na Cachoeira dos Codós...Ah!:..Esse é o Vitor.

- Tudo bem?

-Tudo...

- Vai ter um luau no Cachadaço esta noite e nós estamos indo para lá; o Vitor vai levar a barraca dele e amanhã a gente volta...Tudo bem?...

- Claro...

- Falou então...’Té mais...

Silêncio na mesa.

- Bonitinho o amigo dele, né...

- Olho azul...

- Verde!

- Azul, menina você ‘tá cega!...

- Você que é daltônica...

- Vão parar de babaquice!...Deixa o cara!

...

- Eu só queria saber quem é o ativo ali, falou uma delas em tom de fofoca...

- Miguel é que não é...Luiz Henrique pensa alto.

- Como você sabe?, dispara uma das amigas de Melina.

- Raquel!, a gente podia fazer uma fogueira na Praia de Fora, minha tia empresta o som portátil dela...Vai ser um maior barato!

- Nossa! Vou fazer uma salada de frutas...

- Os meninos vão atrás da madeira...

Resolvem pagar a conta e ir em busca da programação combinada; Melina tinha salvo a noite: nesse dia, Luiz Henrique chamaria Raquel para namorar...

 

 

 

 



 Escrito por Nosferatu às 22h55 [] [envie esta mensagem]