Escrito por Nosferatu às 18h59
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TROIA - O FILME
Depois de muito me contorcer em sofrimentos éticos-ideológicos, quebrei uma barreira e fui assistir a mais um fruto da cultura de massa hollywoodiana: Tróia. Sabia que seria uma decepção garantida mas...Não sabia que tanto!
Que filme foi aquele? Logo Wolfang Petersen, que já fez The Boat? Esperava aquela superprodução impecável; cenários, locações grandiosas mas o que fizeram com o Homero foi um sacrilégio a um patrimônio literário da humanidade – imperdoável.
Homero não só revirou no túmulo como deve ter levantado e ido atrás dos caras. Se aparecer o diretor ou o roteirista mortos misteriosamente, já sabem o que aconteceu...
Os valores da idade antiga – principalmente na cultura pré-helênica – eram outros em relação aos de hoje: a bravura, a coragem, a conquista eram enobrecedores para o homem. Seu valor realmente estava ligado ao número de batalhas vencidas, de mortes infligidas. Havia um código, a partir de um determinado momento histórico, mas era um código de honra ligado à guerra. O estado era bélico em essência.
A lenda é uma apologia ao homem e a suas paixões desenfreadas face à ânsia por viver; tudo isso através de uma sagração explícita e assumida à guerra.
A invasão de Tróia por Ulisses; a tomada e o massacre subseqüente são vistos como feitos heróicos dignos da dimensão que Homero dá a seus personagens – ao homem, enfim.
Aquiles era um bandido sanguinário, amoral, destemido, feroz; e me aparece no filme um Brad Pitt com sentimentos de culpa de estar matando tanta gente. A culpa, acima de tudo, é uma instituição judaico-cristã. O épico foi escrito muito antes de qualquer expansão cultural destes povos. E como então vêm falar de culpa, dor de consciência com a guerra?
A tomada de Tróia é mostrada, no filme, como uma tragédia humana; na lenda é o ponto alto da narrativa – a coroação da sagacidade sobre a força das muralhas da cidade.
Seria melhor que tivessem feito mais um filme sobre o Vietnan do que a violência cultural que infligiram à literatura, já que um filme bélico seria politicamente incorreto no atual contexto político mundial.
De resto só corpos sarados e uma Helena definitivamente, indubitavelmente, inquestionavelmente seqüestrável; apesar da cara de quem saiu de uma prova de fotos para a revista Vogue.
Não tenho dúvidas de que vivemos um momento decadente de nossa civilização, com a sagração da culpa e da dor em oposição ao reconhecimento à grandiosidade das potencialidades humanas.
Escrito por Nosferatu às 21h16
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Ensaio nº 11
Internado há três dias; crise de asma. Desde garoto uma rotina; pausa por uns anos e tudo novamente...
- Boa noite Felipe!
- Boa noite enfermeira...Injeção agora?
- É...
Prepara o equipo; começa a injetar.
Olha-me com a piedade e ternura de sempre – conhecia-me há anos...Após segundos, começo a sentir certo desconforto: seu sorriso sempre bondoso, seu semblante de paisagem começa a causar-me espécie. No lugar dele vai surgindo uma expressão estranhamente maliciosa, gradativamente má.
Percebo que seus olhos vão se injetando de vermelho, tomando dimensões assustadoramente maiores. O queixo vai ganhando proporções mais proeminentes e a boca transfigura-se num rostro de inseto carnívoro. A pele vai tingindo-se de pardo ao mesmo tempo em que cresce de tamanho; para o alto. Agiganta-se.
Novos braços multiarticulados vão surgindo de seus flancos, perfurando em frangalhos suas vestes alvas de enfermeira. Começa a subir pela cama.
Entre eu e o teto, neste momento, há uma criatura.
Os olhos vermelhos de fúria, as quelíceras recém-surgidas tremeluzem freneticamente sobre minha cabeça, ante o quebraluz da parede, crepitando como gravetos quebrados.
Estou paralisado: suas patas impedem qualquer movimento meu sob os lençóis, como numa camisa de força.
Ao instante de gritar uma gosma branco-opalescente derrama de sua boca sobre a minha face, esgotando imediatamente a possibilidade de respirar. Tento gritar...Em vão: sufoco-me.
Seu abdome oblongo estende-se solenemente para o alto levantando todo o seu corpo; gira-o então, em direção à minha pelve. Um ferrão se apresenta – enorme como uma espada. Desespero: giro minha cabeça para os lados, aterrorizado. Consigo me libertar da gosma. Grito com todos os meus pulmões.
A porta se abre, num espasmo.
- Rutiléia!
- Sim Dr. George!
- Esta morfina era para o 303!
Escrito por Nosferatu às 19h48
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