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UMA HISTÓRIA REAL

 

 

Essa história aconteceu há alguns anos atrás. Um grupo de evangélicos decidiu converter ao cristianismo um aldeamento indígena em Aracruz - E.S.

Chegando lá pediram para fazer uma roda e começaram a pregação. A dada altura o pastor perguntou ao grupo indígena, naquela entonação que se conversa com crianças: - vocês sabem quem fez esse rio?

Após um silêncio geral, o cacique levantou e disse:

- Para nós foi Tupã, para vocês, Deus. Inclusive nós conversamos sobre isso no Chile, num encontro de povos indígenas. Após o encontro decidimos nos reunir em Brasília...Na ida eu estava no avião pensando...Enfim: eram totalmente descolados, politizados e conscientes da escolha por Tupã – decepção geral.

Grande parte do grupo evangélico era composto de jovens; teve um que chegou perto de um culumim ( garoto em tupi-guarani para quem não sabe...), nu e bem sujinho de areia.

- Mim Elder, seu nome é...?

O garotinho olhou com estranheza e disse:

- Eu sou fulano...Eu vim com você no ônibus...

Como não havia mais o que fazer decidiram resolver o problema numa partida de futebol. Era o momento de mostrar a superioridade da cultura branca e evangélica sobre a indígena e pagã.

Resultado da partida: Brancos quatro, indígenas onze!

Ao final da visita–catequização frustrada o pastor diz hipocritamente: - Aparece lá na igreja para uma visita...

Na mesma semana baixa algumas índias na igreja com uma penca de filhos cada e ficam uma semana...

É inacreditável a empáfia e o narcisismo destes grupos que se supervalorizam por alguns conhecimentos ocidentais e um punhado de fé “cristã” e olham para o povo pobre e indígena achando que são um bando de ignorantes, passíveis de serem manipulados. É muita pretensão; gostaria que situações como esta ocorressem diariamente.

 



 Escrito por Nosferatu às 18h59 [] [envie esta mensagem]



TROIA - O FILME

 

Depois de muito me contorcer em sofrimentos éticos-ideológicos, quebrei uma barreira e fui assistir a mais um fruto da cultura de massa hollywoodiana: Tróia. Sabia que seria uma decepção garantida mas...Não sabia que tanto!

Que filme foi aquele? Logo Wolfang Petersen, que já fez The Boat? Esperava aquela superprodução impecável; cenários, locações grandiosas mas o que fizeram com o Homero foi um sacrilégio a um patrimônio literário da humanidade – imperdoável.

Homero não só revirou no túmulo como deve ter levantado e ido atrás dos caras. Se aparecer o diretor ou o roteirista mortos misteriosamente, já sabem o que aconteceu...

Os valores da idade antiga – principalmente na cultura pré-helênica – eram outros em relação aos de hoje: a bravura, a coragem, a conquista eram enobrecedores para o homem. Seu valor realmente estava ligado ao número de batalhas vencidas, de mortes infligidas. Havia um código, a partir de um determinado momento histórico, mas era um código de honra ligado à guerra. O estado era bélico em essência.

A lenda é uma apologia ao homem e a suas paixões desenfreadas face à ânsia por viver; tudo isso através de uma sagração explícita e assumida à guerra.

A invasão de Tróia por Ulisses; a tomada e o massacre subseqüente são vistos como feitos heróicos dignos da dimensão que Homero dá a seus personagens – ao homem, enfim.

Aquiles era um bandido sanguinário, amoral, destemido, feroz; e me aparece no filme um Brad Pitt com sentimentos de culpa de estar matando tanta gente. A culpa, acima de tudo, é uma instituição judaico-cristã. O épico foi escrito muito antes de qualquer expansão cultural destes povos. E como então vêm falar de culpa, dor de consciência com a guerra?

A tomada de Tróia é mostrada, no filme, como uma tragédia humana; na lenda é o ponto alto da narrativa – a coroação da sagacidade sobre a força das muralhas da cidade.

Seria melhor que tivessem feito mais um filme sobre o Vietnan do que a violência cultural que infligiram à literatura, já que um filme bélico seria politicamente incorreto no atual contexto político mundial.

De resto só corpos sarados e uma Helena definitivamente, indubitavelmente, inquestionavelmente seqüestrável; apesar da cara de quem saiu de uma prova de fotos para a revista Vogue.

Não tenho dúvidas de que vivemos um momento decadente de nossa civilização, com a sagração da culpa e da dor em oposição ao reconhecimento à grandiosidade das potencialidades humanas.

 

 



 Escrito por Nosferatu às 21h16 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 11

 

Internado há três dias; crise de asma. Desde garoto uma rotina; pausa por uns anos e tudo novamente...

- Boa noite Felipe!

- Boa noite enfermeira...Injeção agora?

- É...

Prepara o equipo; começa a injetar.

Olha-me com a piedade e ternura de sempre – conhecia-me há anos...Após segundos, começo a sentir certo desconforto: seu sorriso sempre bondoso, seu semblante de paisagem começa a causar-me espécie. No lugar dele vai surgindo uma expressão estranhamente maliciosa, gradativamente má.

Percebo que seus olhos vão se injetando de vermelho, tomando dimensões assustadoramente maiores. O queixo vai ganhando proporções mais proeminentes e a boca transfigura-se num rostro de inseto carnívoro. A pele vai tingindo-se de pardo ao mesmo tempo em que cresce de tamanho; para o alto. Agiganta-se.

Novos braços multiarticulados vão surgindo de seus flancos, perfurando em frangalhos suas vestes alvas de enfermeira. Começa a subir pela cama.

Entre eu e o teto, neste momento, há uma criatura.

Os olhos vermelhos de fúria, as quelíceras recém-surgidas tremeluzem freneticamente sobre minha cabeça, ante o quebraluz da parede, crepitando como gravetos quebrados.

Estou paralisado: suas patas impedem qualquer movimento meu sob os lençóis, como numa camisa de força.

Ao instante de gritar uma gosma branco-opalescente derrama de sua boca sobre a minha face, esgotando imediatamente a possibilidade de respirar. Tento gritar...Em vão: sufoco-me.

Seu abdome oblongo estende-se solenemente para o alto levantando todo o seu corpo; gira-o então, em direção à minha pelve. Um ferrão se apresenta – enorme como uma espada. Desespero: giro minha cabeça para os lados, aterrorizado. Consigo me libertar da gosma. Grito com todos os meus pulmões.

A porta se abre, num espasmo.

- Rutiléia!

- Sim Dr. George!

- Esta morfina era para o 303!

 



 Escrito por Nosferatu às 19h48 [] [envie esta mensagem]