Ensaio nº 12 parte B ( a parte A está abaixo)
Mais e mais havia moldado suas atitudes em função do olhar dos outros, do que esperavam dele. Percebeu que a naturalidade – ou irresponsabilidade – do seu falar teve que dar lugar a um discurso quase diplomático face aos efeitos que porventura poderiam provocar. Havia envelhecido nas atitudes porque esperavam dele atitudes mais geriátricas.
Se sua imagem social passou a envelhecer e ele embarcou numa viagem coletiva de comportamentos estereotipados; o que, de fato havia acontecido com ele? – se perguntou. Era correto afirmar que havia mudanças...
Com relação ao mundo sentia que lidava melhor com as situações por ter acumulado experiências; isso também ocorria no trato com as pessoas.
Tinha se tornado menos apressado, pois entendia que tudo precisava de tempo para se resolver. Lembrou que, se possuía mais conhecimento era afinal por ter mais horas de leitura que as pessoas mais novas.
Quanto aos jovens, a sensação de envelhecimento vinha de sentir que já havia passado por aquelas situações que eles apenas estavam começando a se dar conta. Diante da repetição dos dramas existenciais que chegou a presenciar, chegou até a acreditar, por um tempo, que a vida humana era monótona e sem criatividade.
Mas, apesar de todas estas constatações havia algo nele que permanecia o mesmo. Por mais que tivesse vivido e aprendido, algo inexoravelmente permanecia imutável. Algo de infantil permanecia incólume a qualquer modificação.
De que teria valido todo o esforço de viver para edificar um mundo privado de bem-estar burguês que tanto havia obcecado sua mente por décadas? E toda a avidez por informação onde quer que ela estivesse?
Percebeu, fim das contas, que todas as experiências e leituras não o haviam conduzido a nenhum saber acabado, a nenhuma verdade. Que suas certezas eram todos os dias postas em dúvida face ao fluxo incessante de novidades que abarcavam sua vida de experiências
Essencialmente sentia-se o mesmo ignorante de quatorze anos quando leu seu primeiro livro de filosofia.
Diante da imensidão do universo sequer havia arranhado o plano das aparências; mesmo as pessoas continuavam a lhe surpreender todos os dias. Sua ânsia por uma verdade – uma verdade apenas! – era a mesma: insaciável e frustrada.
Tinha construído um mundo de segurança que lhe garantia uma sensação de controle e posse da realidade, mas honestamente não acreditava na solidez daquele teatro todo: sentia que tudo poderia desmoronar, a qualquer momento como o forte apache que ele - criança - construía e destruía todos os dias, nas eternas encenações de guerras entre brancos e índios.
Por mais que tivesse tentado, ainda era a mesma criança brincando de viver.
Colocou o caroço da ameixa sobre um prato, levantou-se. Acordou sua mulher.Fez sexo com um afeto juvenil que há muito não fazia.
Naquela semana pediu umas férias e viajou com Marília para uma segunda lua de mel – Sant Barth (sempre teve uma vontade de conhecer aquela ilha...).
Naturalmente que acharam que algo de estranho estava acontecendo com ele; mas pela primeira vez na vida, não ligou para o que os outros estavam pensando: fez o que quis...
Escrito por Nosferatu às 00h02
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Ensaio nº 12 Parte A
Marcelo acordou mais cedo naquele sábado; olhou para Marília, sua esposa – dormia profundamente. Seu coração estava apertado, angustiado. Levantou-se; foi até ao banheiro. Lavou as mãos com sabonete fazendo bastante espuma; esfregou a espuma no rosto limpando a pele (fazia isto todos os dias ao acordar). Enxaguou.
Ao levantar o rosto, ainda molhado, viu-se no espelho. Obviamente que ele se via refletido todos os dias: em casa, nas vitrines, nos banheiros de restaurantes, cafés, etc. Naquele dia foi diferente: olhava para dentro de sua íris – profundamente...Olhou a calvície que se formava, as têmporas grisalhas, a expressão cansada das rugas de seus olhos.
- Estou ficando velho...
Abateu sobre ele uma profunda melancolia. Foi para a varanda de seu apartamento. Teodora já havia aprontado a mesa do café: frutas, café, suco, tudo muito colorido, como sua esposa gostava. Sentou e admirou a nuvem extensa e solene que cobria todo o céu e que se estendia até ao horizonte cinzento. Ventava. O mar batia em ressaca incansavelmente sobre a mesma a costa ornada por um calçadão de pedras portuguesas. Ninguém andava naquela hora; uma vez ou outra uma gaivota voava, como que desavisada, à altura do seu andar.
Apanhou uma ameixa.
- Porquê estou ficando velho? Perguntou-se.
De certo havia uma constatação física: não jogava tênis como a vinte anos atrás, sua barriga vinha se tornando proeminente, a pele vinha perdendo o viço e a rugosidade aumentava a cada ano, mas uma observação era categórica nesse momento: as pessoas haviam mudado a forma de tratá-lo.
Percebeu que não era algo que pudesse ser sentido imediatamente – a mudança veio em gradações crescentes, ao longo das décadas.
No princípio – ainda com seus trinta anos – mais e mais pessoas passaram a chamá-lo de Sr e o Dr. foi se tornando cada vez mais freqüente. Lentamente o olhar reprovação ou surpresa surgiam ante uma frase de espírito ou uma piada, feita em ambiente de trabalho, na rua ou mesmo em casa. Um respeito e distanciamento formal foram, então, dando forma a seus contatos ocasionais. Os jovens passaram a tratá-lo, cada vez mais, com distância e estranhamento refutando qualquer comportamento de camaradagem. O diálogo com seus filhos foi se tornando superficial e mais penoso.
Lentamente uma redoma foi surgindo à sua volta.
Um comentário de desaprovação seu fazia surgir mais desconforto entre as pessoas que quando jovem (ninguém ligava para suas reclamações por aquele tempo...). Quando se deu conta disso tornou-se até mais cauteloso a manifestar um desagrado em relação a qualquer coisa. Sentia que os acompanhantes viam-se impelidos a ter que dar conta de sua insatisfação, o que era profundamente desagradável para todos...Seus filhos viam qualquer crítica sua como um mandato de mudanças, (quando, na maioria das vezes ele só estava expressando sua opinião...) o que gerava alguns desentendimentos banais.
Concluiu que suas mudanças físicas foram gerando, por parte dos que o cercavam, uma expectativa de comportamento sisudo e superior - estereotipado.
Escrito por Nosferatu às 00h01
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