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http://fotolog.net/miranda027

Outro dia, um flog amigo -  http://fotolog.net/miranda027 -  me mandou esta foto que ele havia tirado num último trabalho. Fiquei olhando para a ambigüidade dela: uma indiazinha linda, metade pb e metade colorida.

Fiquei pensando sobre a significação dela e acabei, para variar, meditando sobre o domínio português no Brasil.

Cinqüenta anos após o descobrimento iniciaram, os jesuítas, o processo de catequese dos índios. Começaram, espertamente, pelos culumins, pois estes eram mais dóceis a novos aprendizados.

Veiculavam, os padres, as idéias cristãs através de poesias, teatros, músicas. Tudo muito divertido. Após as aulas as crianças voltavam para a taba contando tudo que haviam aprendido, para os adultos de sua raça.

Desta forma as crianças indígenas foram usadas para fazer penetrar nas aldeias indígenas os ideais e os costumes brancos, feito uma injeção numa veia; lentamente, esperando os efeitos da contaminação branca em longo prazo, quando estes crescessem e fossem assumindo os postos de importância dentro da aldeia.

Foi através da sedução que os padres foram ganhando culturalmente os culumins, criando neles esta situação ambígua de estar em dois mundos e, por fim não pertencerem a nenhum deles. E isso não é mentira, pois os catequizados e os filhos mestiços acabavam, muitas vezes, marginalizados pelos dois lados.

Muitos resolveram sua integração à cultura branca capturando seus semelhantes para venderem aos portugueses como escravos, por um preço cinco vezes menor que o preço dos negros. Isto pode parecer meio estranho, mas sendo os índios escravos baratos não havia a mínima necessidade de velar pela vida deles já que havia abundância desta mão de obra e, ainda por cima era de baixo custo. Um escravo negro levava cinco anos de trabalho para cobrir o preço que ele próprio havia custado e, assim o senhor de engenho era obrigado a tratá-lo um pouco melhor que os índios.

Lembro de ter lido uma frase que Jung disse a Freud à entrada da baía de Hudson – New York – quando da primeira palestra de psicanálise em solo norte-americano: - Eles não sabem, mas nós trazemos a peste...

Jung fazia alusão ao filme de Murnau – Nosferatu – onde o mesmo chega a uma cidade, em seu navio, sendo bem-recebido pela população, ainda inocente da dor e do sofrimento que aquele episódio provocaria em suas vidas.

Segundo Padre Vieira, em 150 anos de colonização portuguesa no Brasil, dois milhões de índios foram assassinados. Se vocês fizerem as contas verão que foi mais de um Carandiru por dia.

Pois a foto me lembra justamente isso: a lado sombrio que passou a habitar nessas crianças como que uma doença, que acabou, de uma forma ou outra, a contribuir para um dos maiores genocídios a que se tem notícia, nas histórias das civilizações humanas.

Mas o Brasil me surpreende: em meio a tanta dor e sofrimento, provocada pela escravidão e pelo genocídio puro e simples, essa mesma população, aproveitando as técnicas sincretistas dos jesuítas, construiram, como que num milagre, a cultura brasileira, aproveitando o vácuo cultural entre a casa grande e a senzala.

Na busca da transcendência da dor inventaram uma civilização; e, por fim, derrotaram um postulado hegeliano onde ele diz que o escravo somente resgata sua humanidade perdida através do trabalho. Pois os nossos escravos resgataram sua dignidade através da cultura.

Aquele que compreender plenamente este teorema terá a chave para a revolução brasileira.



 Escrito por Nosferatu às 22h56 [] [envie esta mensagem]