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Cazuza – O Filme

 

Fui esses dias assistir um filme sobre um ícone de minha geração: Cazuza. Não deu para não sentir saudade de minha juventude, das modas e dos sons da época. Eu presenciei, como tantos, a agonia pública dele.

 Como um ícone ele levou sua vida até o fim. Mas porquê? Muitos outros morreram em silêncio ou escondidos; muita gente conhecida, hollywoodianos inclusive, morreram por aquela época. Fred Mercury, com todo o marketing “saí-do-armário-e-não-estou-nem-aí” morreu sem revelar nem seu sofrimento, sua doença ou mesmo seu diagnóstico.

O que ele queria que nós testemunhássemos? Cazuza, acima de toda genialidade artística, foi um performático: sua vida era uma obra de arte – a representação dos ideais de uma geração: a primeira fornada da geração coca-cola; que ainda tinha, fresca na memória, os anos cruéis de uma ditadura militar. Era o representante máximo de uma geração prisioneira da passagem para uma época que hoje se encontra consolidada, infelizmente.

Uma geração destituída - à força - de toda ideologia de libertação político-social anterior, não tendo ainda claro para si a ética consumista que haveria de reinar daí por diante. A Europa estava delirando com o movimento punk – um movimento de protesto ao absurdo consumista que estavam enfiando goela abaixo de toda uma geração - mas quem pôde ver? A ditadura militar censurava todas as publicações, filmes, etc. A juventude brasileira da época permaneceu isolada culturalmente do resto do mundo. Muitos optaram por abraçar o movimento político universitário como alternativa; seguir os passos dos que já haviam crescido – a contracultura. Outros, por falta de conteúdo ideológico, tão decantado na música dele, preferiram entregar-se ao hedonismo desvairado e sem limites da época. Desbundaram, como diria na década de 70.

Realmente o mundo viveu uma liberdade sexual nunca antes vista; parecia que todos os resquícios da moral vitoriana tinham ido de água abaixo. A camisinha – como diria Jabour – não era um símbolo de um sexo higiênico, prescrito pela medicina; era de um sexo que se revoltava com a moral cristã que equaliza o sexo à procriação.

A AIDS vem para acabar com a festa; era a desculpa que os moralistas de plantão precisavam para reimplantar a ética vitoriana sexual, estrangulando abortivamente toda uma geração.

Um dos ícones máximos da época foi um filme – Atração Fatal – em que um homem comum tem uma relação extra-conjugal e sua vida se perde num inferno de terror. Relação fora do casamento é pecado e merece ser castigado – a moral, enfim, do filme...

Morre Cazuza, fechando uma geração, uma década, como Janis Joplim ou Jimi Hendrix.

Nasce uma geração conformista, consumida pela cultura de massa, obediente ao poder vigente. Com certeza alguns grupos buscam uma saída para a decadência social e filosófica de nossa civilização. Tudo que posso dizer a esses é: - boa sorte, tenho esperança em vocês!

Os anos verdes da década de 80 tiveram seu encanto (fui um adolescente feliz), mas foram perdidas na indefinição; na ânsia por viver e no descaminho da escuridão de um cientificismo burguês que catapultou nossa geração para um abismo sem fim. Foi esse o testemunho que, creio, Cazuza quis deixar para todos nós: a morte e a desesperança foram o nosso maior legado; a herança que nos coube deste mundo.

Para aqueles que ousarem criticar nossa geração, de forma infame, deixo uma frase de um grande teatrólogo alemão:

 

“Vós que viestes na crista da onda em que nos afogamos, quando falar de nossas fraquezas, pensai no tempo sombrio a que haveis escapado”.

Berthold Brech

 

A queda de Cazuza é a queda de toda uma geração: a dos filhos da ditadura.

   

 



 Escrito por Nosferatu às 21h04 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 13

 

Estava rodando há horas pelas ruas da cidade. Tinha saído mais cedo do jantar onde estava. Não causou estranheza já que era conhecido por ir embora sem despedir-se.

As ruas passavam uma após outra bombardeando intermitentemente seu rosto com luzes, ora amarelas, ora brancas ofuscantes...Carros em profusão no caos de uma noite de sábado; faróis, buzinas, velocidades. Efervecência. No carro, Flaming Lips fazia uma trilha sonora que apenas aumentava seu vazio.

De forma nostálgica seu casamento vai passando como um filme em sua mente...Não conseguia esquecer aquele rosto que ainda lhe era meigo; seu sorriso como que pedindo e injetando felicidade numa mente sempre taciturna. Helena tinha sido sua única razão de viver...

As mesas dos bares, nas calçadas...Milhares de vidas acontecendo num torvelinho de situações, se sucedendo diante de sua vista: inícios de namoro, brigas conjugais, piadas que faziam a mesa ir abaixo, em exaltação. Mais à frente uma discussão – dois rapazes tirando satisfação, uma moça em desespero. A realidade passava como que num caleidoscópio dentro de uma mente vazia de emoção – estava só...

Vê-la feliz ao lado de outro tinha sido uma facada para ele; logo ele que em nada sua vida havia resultado desde quando ela pediu a separação:

- Não vejo mais futuro na minha vida com você!

Uma semana antes do seu aniversário...

Pelas ruas os travestis exibiam decotes, pernas, seios fartos numa apoteose de exibicionismo artificial em meio a clientes sedentos de sexo em perversão. Um deles manda-lhe um beijo obsceno de uma boca túrgida de silicone barato sob uma cascata de cabelos loiros oxigenados. Um segundo e já tinha passado - era apenas mais um evento em meio à sucessão de fatos que sua vida tinha se reduzido; ele, aturdido, apenas assistia.

- Você é um fantasma dentro dessa casa, Carlos! Você acha que está vivo; para mim você já morreu! Gritava, aos prantos.

A frase ainda ecoava pela sua cabeça. Naquele dia ela o ferira mortalmente.

Uma blitz; sirenes, luzes vermelhas; pára o carro. O de praxe: documentos e algumas perguntas. Sem expressar alguma emoção, apenas obedeceu.

Vira uma rua, um calçadão. Na parede um rapaz segura a mão de uma menina que, à sua frente, coloca a mão em seu rosto – amor...

Sem suportar muito, seus olhos enchem de lágrimas. A felicidade no amor era algo raro em sua vida. A solidão assolava sua existência sentindo viver num deserto de experiências.

Mais uma esquina e as putas mais caras das ruas se ofereciam pelas calçadas encobertas pela meia-luz constante.

 Encontra uma bonitinha; estaciona. Chama e confere seu corpo escaneando com o olhar. Servia. Combina o preço e manda entrar.

A rota agora era o motel de sempre...

Sentia-se como uma hiena vivendo de detritos alheios; migalhas do nada numa vida devastada pelo egoísmo e pela desesperança...  

  

 

 



 Escrito por Nosferatu às 00h09 [] [envie esta mensagem]