Ensaio nº 16
Sempre antes de sair de casa, escolho três cds para levar para a rua. Dá um pouco de trabalho, às vezes me atraso para os compromissos, mas, preciso de minha trilha sonora para o dia. Escolhi, esses dias, o Obscured by Clouds do Pink Floyd – disco antigo...Tão antigo como minha vida...
No carro, enquanto ouvia, me veio as recordações que aquele disco me traz. Deu muita nostalgia...
Tinha eu lá meus 12 anos, era tímido e vivia em casa devorando enciclopédias, livros de ficção científica e muito seriado de TV além da tradicional sessão da tarde acompanhado de goiabada, queijo, pipoca, etc, etc, etc...Por essa época já tinha minhas crises de depressão, tão comuns na entrada da adolescência: questionamentos metafísicos, ontológicos e por aí vai.
Numa tarde saí com minha mãe - ela me havia pedido para fazer compras na rua com ela. Fui. Ao final das compras ela me disse:
- Vou comprar um disco para você!
Minha mãe sempre me incentivou à música e com ela tive o prazer de aprender a gostar dos eruditos.
Entrando na loja olhei um vinil na prateleira e disse
- Deixa eu ouvir esse!
Era o próprio Pink Floyd. A primeira música inicia com um dos solos mais virtuosos que já ouvi do David Gilmor; um escândalo: a guitarra parece falar.
Minha mãe vira e diz:
- O que é isso, meu filho! Assustadíssima.
Eu pensei: - É isso!
Foi com o Pink Floyd de que eu iniciei a longa jornada de crescimento pessoal promovendo as separações necessárias da minha família, me fazendo afirmar junto a eles meus gostos pessoais, minhas diferenças; embalou meus devaneios, minhas primeiras experiências da juventude com os meus amigos, “papos – cabeça” intermináveis sobre o universo, a vida, os problemas existenciais. Já virei uma noite discutindo dialética e a teoria dos fractais (ao som de muito Pink Floyd, claro...).
Quanto mais penso isso, mais eu vejo na música uma das maiores expressões do espírito humano, e nos músicos, aqueles que não apenas criam música, mas que fazem a trilha sonora das aventuras e desventuras de todos nós, seres humanos. Dos inícios, momentos e términos de tantas relações, viagens, experiências.
É com a música que eu posso, muitas vezes, saborear momentos que passaram, mas que não merecem ser esquecidos. É com ela que eu arrefeço tantas dores ou até as curto.
Tenho muito a agradecer ao Pink Floyd; posso dizer que eles me ajudaram a crescer.
Um crítico de música da década de oitenta disse uma vez que as próximas gerações jamais irão entender porque a gente ouvia música olhando para o teto...Gosto de acreditar que entenderiam sim.
Escrito por Nosferatu às 02h31
[]
[envie esta mensagem]
Ensaio nº 14 Segunda Parte - A primeira está postada abaixo.
Resmungou alguma coisa...
- Quebrou sua empresa...Tivemos que mudar para casa do seu pai...
- Deu tudo certo, não deu? Nossos filhos estão criados; tudo trabalhando...Eles são felizes, Patrícia!
- É, mas...Minha maior mágoa foi entender que meu amor não era o bastante para você...Você nunca esteve à altura da dedicação que eu tinha por você, por nossos filhos...
- Patrícia, nós já conversamos tanto sobre isto...Você sabe que eu não estava bem...Você se lembra daquela conversa com o médico na clínica...
- Aquela clínica que você pulou o muro para encher a cara no primeiro bar?
- Lá vem você novamente...Você nunca me perdoou não é mesmo?
- Do que Gustavo? Foram tantas...
- Tivemos nossos momentos felizes...
- Quando a gente visitou a Índia...
- Você tinha virado budista,você lembra?
- Claro que eu lembro...Ficar naquele mosteiro com você foi uma das coisas mais divinas que eu tive na minha vida, sabia? Eu engravidei do Bruno, lá...
- A gente deu uma esticadinha até o Nepal...
- Era muita neve...Ai que frio que era!
- Eu ‘tava sempre te esquentando...
- Você era muito carinhoso quando queria...
- Você sabe o que eu quero agora?
- Que foi Gustavo?
-...Brincar um pouquinho...O velho não bate o ponto há um mês sabia?
- Gustavo, para com isto...Eu sou uma velha!
- E não pode se divertir? Vem cá meu bem...
- Nossa ‘tá bom ainda...
- Não te disse...Vem cá meu amorzinho...
- Seu safadinho...
E o sol se põe glorioso na Estância Santa Margarida.
Escrito por Nosferatu às 10h04
[]
[envie esta mensagem]
Ensaio nº 14 Primeira Parte
Fim de tarde em um sítio nas montanhas. O ano é 2040; dois velhos conversam no cais do lago:
- Gustavo...
- Sim, Patrícia.
- Rafaela, ligou ontem...O Alfredinho já melhorou da tosse...
- Que bom...
- Eu sempre falo que criança não agüenta mudança de clima, mas ela é teimosa: quis que quis levar o filho para Europa...Não sei se mulher casada tem que fazer mestrado tão longe...
- Patrícia, ela já é uma adulta, minha querida...Faz tempo que ela cresceu...Ela sabe o que está fazendo.
- Mas é difícil para mim, Gustavo...Corta meu coração lembrar que as crianças cresceram...Parece que foi ontem, não é Gustavo?
- Quando eu te conheci...
- Foi na festa do 12 em Ouro Preto...Como eu era doidinha naquele tempo...
- Eu tinha uma cartela de ácido, lembra?
- Eu nunca tinha experimentado aquilo...
- Você insiste em dizer que não tinha experimentado! Tem cinquenta anos que você mente para mim...
- Como mentir! Eu só conhecia maconha; você que veio com todo aquele arsenal de drogas para cima de mim...E eu me encantei com aquele cabelo longo seu, sua moto enorme...
- Quer dizer que você se arrepende de ter casado comigo? Porque então viveu tanto tempo assim? Patrícia são quarenta anos de casamento!
- Você me fez passar por muitas, Gustavo. Se não fosse a herança do seu pai...
Silêncio.
- Ou você esqueceu que o Bruno foi internado com mal asmático por causa da quantidade de maconha que você fumava no quarto?
- Você fumava também, Patrícia...
- Mas nunca no quarto, Gustavo! E nem aquela quantidade toda!
- Você ficou uma velha muito chata.
- Ah é? E foi chatice ver a Rafaela se trancar no quarto e dizer que só sairia quando você chegasse! Você saía com aqueles vagabundos para beber – cheirar, sei lá - e ficava três dias sumido, Gustavo!
Escrito por Nosferatu às 10h01
[]
[envie esta mensagem]
|