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Ensaio nº 9 Parte 27
- Caralho Hugo! Você vai assim? Bradou Luiz Henrique.
Hugo já tinha dado uma volta pela vila; comprou um colar de sementes e uma tornozeleira com as cores da bandeira da Jamaica; estava descalço, com uma bermuda comprida abaixo do joelho; no torso, uma camisa surrada do Projeto Tamar, sem as mangas. Seus cabelos negros, escorridos, há muito tinham chegado aos ombros e encobriam o brinco na orelha esquerda – presente de Priscila...
- O cara virou local...
- ‘Tô me sentindo bem assim...’Tô mais parecido comigo...
- ‘Tá legal...Você quem sabe...
A rua principal de Trindade possui bares, restaurantes, pousadas em seus dois lados. Ao longo dela, turbas de tatuados, cabeludos, hippies vendendo seu artesanato na beira da rua, dreadlocks em profusão; meninas desfilavam despreocupadas e felizes. A estética alternativa das casas do local, além das pessoas, davam ao ambiente um astral de feira turca, com seus vendedores ambulantes por todo lado. A magia do espiritualismo alternativo parecia estar incrustada em cada madeira, em cada parede da vila. Pelas ruas de chão batido circulavam ainda poucos carros; a iluminação tênue ressaltava mais ainda o céu estrelado de Trindade – um caleidoscópio de pontos brilhantes no céu. A brisa soprava, de leve, vinda do mar, com cheiro de maresia.
- Vamos sentar aqui...
Pediram uma cerveja. De pronto a garçonete trás junto com os copos, sempre sorridente.
A duas mesas da sua, Hugo vê um rosto...Ela olha em sua direção; os olhares cruzam e, por segundos fixam-se um no outro. Ela dissipa o olhar e sorri discretamente.
- Cara! Que gata! Falou Hugo.
- Vai lá! Disse Henrique.
- Calma, não sou tão bom nisso quanto você...
Hugo prepara-se para fazer algo; no peito um aperto sem fim; o coração bate forte.
Ele não se importa: sentia que aquele era o momento ou nunca.
Escrito por Nosferatu às 00h13
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Ensaio nº 9 parte 26
Trindade era uma antiga vila de pescadores que, na década de setenta, transformou-se num paraíso para os alternativos que desejavam distância do mundo industrial. De lá para cá, o perfil da vila mudou: tornou-se uma pequena Meca dos herdeiros do movimento.
Situava-se numa estreita faixa plana, entre a serra e o mar. Suas casas enfileiravam-se ao longo da praia formando uma longa rua que era praticamente a única do local.
A praia da vila parecia-se com um enorme gancho: iniciava com o nome de Praia de Fora e se estendia até um penedo, coberto de mata atlântica, conformando-se numa pequena enseada. Como ali, no passado, se alojavam os abrigos dos barcos pesqueiros, este final era chamado de Praia dos Ranchos.
Na Praia de Fora, imensas pedras descansavam pela areia formando um pequeno labirinto natural. Por ela se chegava à Praia do Cepilho que eles já haviam conhecido. Tudo indicava que o resfriamento de rochas vulcânicas, em tempos absurdamente anteriores, havia provocado o espocar das rochas que teriam rolado até a praia. O caminho pelo labirinto era uma experiência instigante.
Onde anteriormente havia os ranchos dos barcos, hoje havia casas noturnas que animavam a noite com shows de reggae.
- Esse camping ‘tá manero...Vamos armar logo a barraca, tomar um banho e ir pra balada...A vila ‘tá cheia de gente!
Miguel e Hugo, apesar de cansados, haveriam de acompanhar Henrique na sua eterna busca por mais sexo.
Escrito por Nosferatu às 00h35
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Ensaio nº 9 Parte 25
- ‘Ta demorando chegar...
- Calma...Mais à frente tem uma subida à direita, quando a gente descer vamos estar na entrada da Vila.
Atravessaram a pista e começaram a subir.
- Cara, que ladeira é essa!
- O nome do morro é Deus Me Livre. Parece que quando a estrada era de chão, na chuva, o bicho pegava...
Alguns minutos se passam até iniciar o declive, que vai por curvas sinuosas em direção à Vila de Trindade.
- Aqui é a entrada para a Praia Brava...Apontando para a esquerda; - só dá para ir pela trilha... É irado!
Do alto, o grupo se depara com um mar azul profundo que desabava fortemente sobre uma pequena praia.
- Caraca!
- É a Praia do Cepilho! Os caras pegam surf aqui...
A praia era limitada pelo sopé do Morro do Deus Me Livre à esquerda e por um penedo baixo à direita. Pedras soltas – gigantescas – pareciam ter rolado das encostas vindo descansar sobre ele. A cadeia de montanhas – altíssima - se perfilava em direção ao infinito; um pequeno riacho descia dela, atravessava a pista indo ao encontro do mar. O verde luxuriante da mata atlântica dominava toda a serra.
Pararam num bar que, de cima da praia, à sua beira, proporcionava - da varanda - uma imagem privilegiada para o oceano. A construção em madeira em estado de conservação sofrível dava ao lugar um aspecto de fim de mundo - distanciamento e liberdade. A maresia, junto com o barulho das ondas, enchia a atmosfera de magia.
Pediram uma cerveja.
- A Praia Brava fica depois desta pedra aqui...Fica quase o tempo todo deserta...Tem uma cachoeira no alto... É irado! A gente vai ter tempo de ir lá...Pra lá fica a vila, a gente tem que atravessar o córrego com o carro e ir em frente...
Luiz Henrique não cansava de ser guia turístico do grupo – amava a região como se fosse sua terra natal.
- Este lugar dá uma calma manera...
Na praia, avistavam-se pessoas em conversas despreocupadas, jogadas sobre a areia – o tempo parecia parar naquele local. Vez por outra um cigarro circulava de mão em mão...
Escrito por Nosferatu às 23h56
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Ensaio nº 9 Parte 24
Na estrada Hugo ia pensando naquele ano - tão diferente para ele. Aqueles amigos lhe estavam desfraldando o mundo e, em seu coração, havia gratidão por cada momento que estava vivendo, por cada descoberta que realizava.
Foi aprendendo rápido a importância dos outros em sua vida; tinha sido importante a atitude que havia tomado no Miguelângelo Buonarotti, crucial como prenúncio do que agora vivia, mas o companheirismo, a amizade fraterna, a solidariedade, era a primeira vez que desfrutava e essa não dependia apenas de si... Quando pensava nisto, sentia um misto de alegria e tristeza; essa que se sente quando da subida ao pódio da vitória, após uma competição; fruto de um orgulho próprio surgido diante das lembranças das adversidades e dos percalços para chegar até àquele momento – o orgulho da conquista - o sentimento exato da constatação de uma transcendência.
É o momento em que se mede o preço de uma ascensão que, sendo justa, transforma-se em paz, tranqüilidade e nostalgia, pois dificilmente alguém não converte tais momentos em sacrifícios a ideais.
Faria tudo para que aquele grupo permanecesse unido: era a família que nunca tivera. Mas a viagem estava apenas começando...
Escrito por Nosferatu às 23h00
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Ensaio nº 9 Parte 23
Enquanto o carro abastecia, foram ao banheiro. Na saída:
- Cara, você já viu a forma como você trata o Henrique?
- Ah...Sei lá...
- Você ‘tá sempre criticando o cara, botando para baixo.
- Mas o cara é muito burro!
- Ele é diferente de você, só isso...Não tem os mesmos interesses: ele gosta de esportes, é mais prático; você gosta de ficar viajando, de ler mais... É muita babaquice achar que uma coisa é mais importante que a outra...
- Vai dizer que esporte é mais importante que filosofia?
- Não estou dizendo isso: estou falando que cada um tem a sua importância, são coisas diferentes...E, além do mais, quem foi que jogou a bomba atômica em Hiroxima? Foram atletas ou cientistas? Eles poderiam ter impedido o massacre...Entre nós três, cada um tem o seu lugar...O cara ‘tá sempre inventando umas baladas maneras...Já pensou se todo mundo fosse igual a você?... Ia ser muito chato! É ele que sempre chega nas meninas; me colocou no basquete...’Tá manero fazer basquete e eu agradeço a ele. Ele é seu amigo e vai estar sempre do teu lado e isto é mais importante que as diferenças que vocês tem. Você fala de democracia, mas é autoritário para caramba! Querer todo mundo igualzinho é coisa de nazista...
Miguel olhou para o alto, ficou pensativo...
- Ah...Sei lá...Tem tanta coisa...
- Você quer falar? Sou seu amigo, cara...
- Não...Deixa pra lá...Você tem razão: eu sou muito grosso com ele mesmo; eu vou pedir desculpas.
Afastou-se e foi ao encontro do outro, que pagava a gasolina. Aproximaram-se, gesticularam, falaram asperamente até a exaltação diminuir; por fim abraçaram-se. Foram ao encontro de Hugo:
- A gente já pode ir...
- Vão fumar unzinho então, pra comemorar a paz...Já ‘tá enrolado...Tirou o baseado do bolso da camisa e acendeu. Satisfação geral.
A viagem continuou ao som do Pixies, depois The Breeders, The Weezer...A harmonia tinha voltado a reinar...Por hora: algo havia ficado por dizer...
Escrito por Nosferatu às 23h02
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Ensaio nº 9 Parte 22
Estavam passando pelo Rio de Janeiro; trânsito infernal, calor insuportável.
- Que falta faz um ar refrigerado...Reclama Miguel
- Se quisesse luxo, vinha de buzão!
- Olha só a do cara! Qualé Henrique...’Tá todo armado! Eu só falei...
- Você só abre a boca para criticar!
- Ei! Vocês são amigos... A gente ‘tá indo para um lugar pra se divertir...Hugo tenta arrefecer os ânimos.
Os dois permaneceram calados, um clima tenso surge no ambiente; o Radiohead no CD player só aumenta a atmosfera fúnebre. Hugo pega uma revista do Asterix para ler – não havia o que fazer naquele momento.
Algumas horas se passam. Angra dos Reis se apresenta para eles.
- Cara! Que lugar manero!
- O mar daqui é irado!
- A cidade é tão pobre...Fala Hugo.
- Como pode um lugar tão bonito ter uma cidade tão feia...
- É mesmo...
- Miguel...Cara, troca esse som...Que é isso?
- Explosions in the Sky...
- Cara, é muito deprê...Coloca uma coisa mais alegre...Nirvana, Oásis...
- Oásis, não!...Eu me recuso a ouvir isso!
- Ah, ‘tá...Agora a gente tem que ouvir só o que você gosta...
- É muito ruim!
- Mas eu gosto, porra!
- Hi...O cara estressou mesmo...
- Estressou o caralho! Você torra o saco com esse gosto de intelectual...Qualé?...
- É que você que devia usar mais a cabeça e menos os músculos...Música ajuda, sabia?
- Eu uso o que eu quero...A vida é minha; e fica calado senão te deixo no asfalto agora!
O clima estava insustentável; silêncio eterno no carro; o Oásis tocando acaba ficando patético; a beleza do mar de Angra destoava da atmosfera no carro.
Pararam num posto para abastecer, ir ao banheiro, comer algo, etc...
Hugo aproveitaria a situação para conversar com Miguel.
Escrito por Nosferatu às 22h35
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