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Ensaio nº 09 Parte 33
Fabrício não era exatamente o que Melina desejava para sua vida: ele nutria uma certa vaidade por estar com ela; sentia-se superior aos amigos por estar namorando uma garota tão linda. Ela sabia que o maior interesse dele não era por ela própria e sim pela sua imagem perante a família e a turma.
Suas famílias eram muito próximas: os pais eram sócios numa mesma empresa; haviam estudado no mesmo colégio desde cedo. No fundo ela se via como um pitbull na coleira de um lutador de Jiu-Jitsu: o cachorro só existe para informar que o dono é bravo e forte e não que o dono gosta de animais. Não gostava de se sentir usada, mas não tinha forças para terminar: Fabrício era muito possessivo e ciumento – tinha medo dele. A cena de bom moço perante seus pais constrangiam-na a tomar decisões mais radicais – a mãe apoiava firmemente o relacionamento. Naturalmente que interesses econômicos contavam bastante naquele cenário familiar...
Ele estava acostumado a comprar tudo que pudesse conferir alguma aura de poder e riqueza à sua imagem pessoal; não gostava de se ver em situação desvalorizada perante os outros; seu jeito presunçoso e esnobe traía seu orgulho e denunciava uma insegurança infinita.
A atitude impetuosa de Hugo tinha mexido com ela: sua coragem para estabelecer seu desejo deixou-a aturdida. Nunca tinha visto inconformismo casado com tanta suavidade e propósito.
Estava preocupada com a noite que viria: encontrar com Hugo era certo, já que todos da vila, à noite, sempre iam para a mesma praia. Não saberia como se comportar: seu olhar iria denunciá-la e, por certo, Fabrício já desconfiava de algo. Ela, com razão, tinha seus temores...
Escrito por Nosferatu às 22h39
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Ensaio nº 9 Parte 32
- Bicho, acordado a esta hora?... Fica quieto, cara!
- Vou para praia...Disse Hugo apressadamente.
Melina haveria de estar na praia, com certeza... Não enrolou o beck, pois queria ter a cabeça concentrada nela; tê-la era a coisa que ele mais queria naquele momento.
Na praia...
- Oi...Como foi o passeio?
- Legal...
- Você não parece muito empolgada...
- Gosto de ver o mar daqui...Não curto muito navegar...
- Você está em que ano?
- Terminei o 1º ano do 2º grau.
- Eu terminei a 8ª série agora. Eu sou de Vitória, Espírito Santo; você é de onde?
- Curitiba...Longe...
- Depende...Quando se quer muito alguma coisa a distância vira um nada.
Melina fica angustiada: - olha Hugo, não sei se é certo a gente se encontrar; eu estou namorando com o Fabrício...
- E daí? Qual o problema? Interrompeu Hugo. - Eu não vejo as coisas da forma como você vê, não... Eu quero muito ser feliz: ter ao meu lado pessoas que eu possa fazer feliz e me fazerem feliz também. Perdi um tempo da vida fazendo o que os outros queriam – sofrendo; não quero mais isto para mim... Vou sempre correr atrás daquilo que eu desejo – sempre! Nunca me interessei por ninguém como por você; desde que te vi não consigo pensar em outra coisa...Eu sei que estou gostando de você, não percebe? O que eu mais queria no momento é que você terminasse com aquele babaca e viesse para mim! Me amarrei no seu jeito, no seu sorriso...Eu nunca vi ninguém como você Melina! O que eu mais queria mesmo era namorar contigo...Ter você como minha garota.
Falava isto olhando dentro de seus olhos, com uma ferocidade terna, cativante.
Melina se perturba, estremece; enrola a canga em desvairio e sai sem se despedir...Hugo tinha sido muito direto com ela.
Escrito por Nosferatu às 22h39
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Ensaio nº 9 Parte 31
O mar está bravo: a lancha projeta-se constantemente de cima das ondas azuis que se formam indo, uma a uma, de encontro a ela; o céu encontra-se recheado de flocos de nuvens alvas que circundam o sol esplendoroso de verão.
Melina passa o dia, atravessando bocados do oceano, com Fabrício e a família dele. Não tirava da mente a imagem de Hugo: tinha se encantado com ele desde a primeira vez. Foi inevitável...Não podia mentir para si mesma: havia derrubado a bolsa de propósito – gesto arriscado já que poderia correr o risco de ter que se abaixar, sozinha, para apanhá-la...No mínimo, humilhante. O desejo falou mais alto.
A ingenuidade do olhar dele; uma certa aura perversamente infantil definitivamente exercia uma atração sobre ela; a gentileza das palavras, a forma explícita de elogiá-la, por fim, acabaram tocando em seus pontos mais fracos: sua carência e uma sensação difusa de falta de sentido que via em seu namoro com Fabrício.
- O que foi? Você está estranha...
- Nada...
Enfadada, desce para pegar um refrigerante – há poucas coisas piores para se ouvir de um ser amado do que um “nada”...
Escrito por Nosferatu às 22h14
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Ensaio nº 9 Parte 30
Ofereceu o baseado a ela: – não, obrigada... Acordou cedo hoje...
- Não consegui dormir direito...Fui cedo para a barraca...Ficou muito tempo na rua?
- Hum,hum...Disse afirmando.
- Com aquele cara...
- O Fabrício...
Foi delicadamente enfática nesta hora.
- Muito playboizinho o cara...Aposto que tem um Golf...
- Riu muito: - tem sim...Rebaixado!
- Você está aqui há muito tempo?
- Estou a uma semana; na casa de minha tia.
- Você tem tia aqui? Falou entusiasmado.
- Tenho; ela abriu uma loja, há uns quatro anos...Vende roupa indiana, estátuas de Bali...Maior barato! Ela é toda alternativa...
- Legal te encontrar aqui...
- É que eu gosto de fazer yoga pela manhã, na praia...
De súbito ela levanta e se prepara para sair.
- Já vai?
- Vou...
- A gente podia se ver mais tarde...
- Não posso: vou para Angra passear de lancha com a família de Fabrício.
- Eu gostaria de voltar a te ver...Você é a menina mais linda que eu já conheci.
Melina demonstra afeição com a ternura de Hugo; sorri e passa, de leve, a mão em seu rosto.
- Amanhã eu vou estar aqui neste mesmo horário!
- Até mais...
Hugo sentia ter conquistado o dia...
Escrito por Nosferatu às 00h21
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Ensaio nº 9 Parte 29
Hugo acordou bastante cedo na sua primeira manhã em Trindade. Miguel dormia no canto oposto da barraca; Luiz Henrique não havia chegado ainda – tinha se enturmado com uma menina num bar na Praia dos Ranchos...
Levantou, vestiu uma bermuda, enrolou um baseado e foi para praia. No meio do caminho lembrou que havia esquecido o isqueiro; não se importou: haveria de achar alguém que tivesse...
Na Praia dos Ranchos alguns dormiam, de roupa, estendidos pela areia; outros observavam fascinados a aurora em Trindade. Hugo continuou andando em direção à Praia de Fora, mais abaixo de onde estava.
Uma leve bruma pairava ainda sobre a praia; o sol irradiava, com toda a sua forma, bem sobre o mar, no horizonte. Ao longe avista alguém sentado na praia; aproxima-se; não acredita no que vê: Melina...
- Opa...Tudo bem?
- Tudo...
- Você tem fogo?
- Tenho...
Hugo senta, pega o isqueiro e acende o baseado.
Escrito por Nosferatu às 00h08
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Ensaio nº 9 Parte 28
A conversa na mesa corre tranqüila, porém Hugo não desgruda seu olhar da garota à sua frente. Estava numa mesa com mais três meninas. Tinha um sorriso aberto e franco; sua pele amorenada contrastava com seus olhos verdes e os cabelos castanhos que escorriam pelas costas. Um cordão de prata artesanal descia pelo seu colo indo se esconder em meio aos fartos seios que o decote de uma camiseta clara desenhava. Uma sandália de couro fina protegia fragilmente um pé delicado e pequeno. As pernas – roliças e lisas - apenas eram cobertas por uma bermuda jeans curtíssima. Sua beleza era fresca e terna – simples e definitiva. Ficava linda quando bebia seu suco de laranja.
Hugo vagarosamente levantou em sua direção – havia aproveitado a falta da cerveja para pedir outra no balcão. As meninas se preparavam para irem embora; uma bolsa cai; Hugo abaixa e pega.
- Obrigada. Agradeceu, fitando-o com seus grandes olhos amendoados.
- Ficaria a noite toda só para pegar sua bolsa, quando caísse...
Ela sorri ternamente.
- Seu bobo...
- Melina! Um rapaz do lado de fora grita asperamente para ela.
- Meu namorado ‘tá me chamando.
- A gente vai se ver ainda...
Ela sorri e sai.
Hugo volta com a cerveja, flutuando – ela havia conversado com ele...
- O que você disse para ela? Perguntou Luiz Henrique.
- Que eu ficaria a noite inteira pegando a bolsa dela no chão.
- Não acredito! Que papo babaca!
- Acho que deu certo...
- Sei lá...O playboizinho não desgruda dela...Olha lá que bicho otário!
Naquela noite não dormiria direito – estava empolgadíssimo.
Escrito por Nosferatu às 18h01
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