Escrito por Nosferatu às 00h23
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Ensaio nº 39 Parte 37
No início da noite começaram a montar uma fogueira no camping. Para muitos, a festa já tinha começado desde cedo e já estavam pancados de tanto tudo... Excitação.
Rápido, pessoas, de todos os tipos, vão gravitando em torno da fogueira , atraídos pela sua placidez e calor: conversa, gritos, risos, confraternização; música de violões, – Legião Urbana: os hinos de todos os acampamentos, – garrafas, baseados, cigarros: tudo vai girando numa comunhão coroada pelos sons dos grilos e dos insetos curiosos em busca de luz. Todos sob o céu que nos protege: única certeza de muitos humanos. A fogueira sempre haverá de evocar lembranças atávicas de um passado muito distante: talvez de tempos onde o homem, de fato, se sabia feliz.
Estavam, os dois, como que em transe: sentava entre suas pernas, no chão, com a cabeça em seu peito enquanto ele acariciava lentamente seu pescoço...Tinham certeza que amavam-se. Nada ainda precisava ser dito, pois a presença, – a simples presença, – de um com o outro já bastava. O amor em seu estado mais puro é ato, não palavras.
O tempo passa...
- ‘Tá na hora de ir para a praia...O bicho já deve ‘tá pegando lá...
A praia estava lotada, no palco, um show de reggae. Do Cachadaço se viam as tochas colocadas por aqueles que queriam maior distanciamento na noite de reveillon. Pessoas dançando - a festa era uma celebração à liberdade de expressão física e intelectual. No ar, o calor e a magia do lugar...
A hora vinha se aproximando; começa a contagem regressiva.
- Feliz ano novo galera! Grita o apresentador do show.
A banda começa a tocar Redemption Song, do Bob Marley; de Parati disparam-se os fogos de artifício que explodem sobre o céu de Trindade; profusões de cores contrastam com o negro do espaço sideral; esplosões dos foguetes enchem o ambiente de fumaça e cheiro de pólvora; pessoas se abraçam freneticamente – ali são todos uma só família...
- Isso é Trindade galera! Doze dias sem tomar banho e escovar os dentes!
Hugo e Melina se beijam por minutos sem fim; abraçam-se. Feliz ano novo, minha linda...
Hugo pede para se afastar e se dirige à água. Entra até ao tornozelo, molhando a mão e se benzendo com ela.
Com a roupa completamente molhada de vinho tinto, olha para o céu e, com os olhos encharcados de lágrimas, pensa em sua vida e agradece a Deus por ser feliz...
Escrito por Nosferatu às 01h04
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Ensaio nº 9 Parte 36
Dia 31 de dezembro:
- Hoje nós vamos à Praia dos Codós.
- Onde fica?
- Do outro lado da Praia dos Ranchos...
A Praia dos Codós era uma pequena praia que ficava situada entre o penedo que finalizava a Praia dos Ranchos e o que dava acesso ao Cachadaço (mais à frente falaremos dele). Era uma enseada mais fechada, de forma que o Cachadaço ficava quase em frente à Praia dos Codós. A praia era dividida ao meio por uma pedra alta, que os mais corajosos usavam para saltos ornamentais quando as ondas entravam pela enseada. Ao fundo, os contrafortes da Serra da Bocaina descansavam solenes cobertos da mata atlântica. Pela praia havia também uma trilha que levava à Cachoeira dos Codós, não muito longe dali.
Nas sombras das arvores alguns hippies estendiam seu artesanato para vender enquanto seus filhos brincavam pela areia. Algumas poucas barracas vendiam bebidas e comidas para os visitantes...
- Estão montando um palco...
- Vai ser a segunda vez que eu vou passar o reveillon aqui... É muito lindo...Vocês vão gostar: a vila fica lotada de gente...Vocês vão ver até a noite...
E ela não mentia: o afluxo de tatuados e outros assemelhados aumentaria a olhos vistos durante todo o dia; a rua, outrora pacata, não pararia de passar carros; a maioria de origem paulista.
- Parece que vai ter um rock no camping...
- A gente fica lá e depois vem pra praia...
- Nem acredito que a gente vai passar o fim de ano aqui...
Escrito por Nosferatu às 22h50
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Ensaio nº 9 Parte 35
No outro dia, pela manhã, muita agitação no camping: amanhã é festa de reveillon.
- Hugo! Tem visita para você...
- Oi...
- Melina... Como você me achou?
- Não foi difícil...Você está bem?
- Mais ou menos...
Tinha levado um soco de Fabrício: a maçã esquerda do rosto estava vermelha. Dormia ainda, na barraca, enquanto os outros, do lado de fora, preparavam o lanche.
- E o mauricinho...Como está?
- Seu amigo acabou com o rosto dele: está com os dois olhos roxos...
Não conseguiu disfarçar a satisfação.
- Cadê ele?
- Foi embora...
- Você não quis ir?
Não respondeu.
- Achei legal você dizer que eu não tenho dono...
- É verdade, você fica com quem você quiser, afinal sua vida...
Melina interrompe suas palavras com um beijo; abraçam-se, então, aninhados sobre o colchonete.
Alguém entra:
- Ops...Desculpa aê...Miguel bota mais leite pra ferver que a patroa vai rangar com a gente!...
Escrito por Nosferatu às 00h08
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Ensaio nº 9 Parte 34
Praia dos Ranchos; onze horas da noite; o lugar já está fervilhando de pessoas. Ao fundo, os bares possuem uma varanda onde geralmente ocorrem alguns shows de reggae. As escadas das varandas levam à praia, parcamente iluminada a não ser por tochas, pelas estrelas e pela lua, em noites claras. O barulho das marolas embala lentamente as pessoas ao som da música local. O clima é de tranqüilidade.
Hugo, Luiz Henrique e Miguel entram em um dos bares; Miguel vai ao balcão comprar cerveja; bar lotado; um grupo de reggae toca Tomorrow People do Bob Marley.
Hugo vê Melina com as amigas. Aproxima-se.
- Oi, tudo bem?
- Hugo, por favor...
- Qualé, meu irmão, não ‘tá vendo que a moça ‘tá acompanhada?
- Ela conversa com quem ela quiser...
- Meu irmão, sai fora que ela é minha garota!
- Ela não tem dono e tem mais:...Você é um babaca!
Fabrício parte para cima dando um soco em Hugo; este revida; os amigos de ambos os lados se aproximam. É porrada: a música pára de tocar; as pessoas se aglomeram para separar a briga ao mesmo tempo em que outras vão sendo envolvidas por tomarem socos à revelia.
O tumulto fica feio; parecia que a noite não ia terminar, mas Luiz Henrique é muito forte e experiente: defende-se e investe pesado esmurrando o rosto do namoradinho desonrado.
Caído no chão, é levantado pelos amigos e levado para fora do bar.
A noite tinha encerrado para ambos os lados.
Escrito por Nosferatu às 23h19
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