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Ensaio nº 09 Parte 56 - Epílogo
Nunca mais Miguel e Luiz Henrique tiveram notícias de Hugo: seus pais não mais atendiam as ligações dos garotos, – nem Igor, seu irmão dava qualquer informação.
Ambos entraram para o supletivo e no mesmo ano estavam na universidade – Miguel em comunicação, Henrique em engenharia mecânica.
Quando formaram, ambos conseguiram pós-graduação na Europa: um em jornalismo, em Lion – França – e o outro no Vale do Ruhr – Alemanha.
Miguel, neste período conheceu Calixto - um artista plástico com quem viveria até o fim de seus dias; Luiz Henrique conheceu Frida, - uma especialista em marketing na indústria onde, após o curso, ele continuaria a trabalhar, chegando à diretoria dela. Miguel, - para seu horror, - passaria a vida escrevendo comentários sobre política brasileira e música erudita, para o Le Figaro. Trabalhar num jornal de direita nunca desceu a sua garganta, mas o salário compensava...
O primeiro filho de Luiz Henrique chamar-se-ia Hugo – Miguel o batizaria. Encontravam-se inúmeras vezes durante o ano: Calixto e Frida davam-se muito bem...
Ambos passaram a nutrir um amor muito grande pelo que faziam – a amizade de tantos anos e o amor pelo mundo compensariam, com gratidão, a perda daquele que, meteoricamente, passou pelas suas vidas mudando o rumo de suas existências – definitivamente.
Às vezes que vieram ao Brasil perguntavam aos amigos pelo paradeiro de Hugo. Fantasiavam encontrá-lo nas ruas, numa lanchonete ou num cinema – mas o sentimento da perda havia de marcá-los por suas existências inteiras.
No fundo incomovada-os a discrepância de suas vidas e as posições de Hugo sobre o quotidiano e a vida em sociedade, - mas haveriam de acreditar que suas vidas na Terra não seriam em vão: tratariam, com dedicação, de tentar transformar seus pequenos mundos em algo amável e benéfico para os que o cercavam.
Houve uma ocasião em que lhes disseram que o havia visto em Porto de Galinhas, com uma mulher e uma criança, vendendo artesanatos nas ruas, mas, ao que tudo indicava, tratava-se de simples lenda...
Escrito por Nosferatu às 03h57
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Ensaio nº 09 Parte 56
- Hugo, amanhã a gente vai embora, - e você?
- Eu decidi dar mais um tempo por aqui, - sei lá, - talvez mais uns dias...
- E a sua família, cara?
- Vou ligar para eles...
- Você quem sabe...
No outro dia, na arrumação do carro, havia uma atmosfera um pouco taciturna: primeiro porque era o fim de uma viagem que se tornou mais uma odisséia na vida de cada um; depois porque a permanência de Hugo não estava compreendida, - nem por ele... – ainda...
- Você acha que vai ficar bem aqui...Sozinho?
- Não vou ficar sozinho, - você sabe, - e além do mais, eu me viro: para voltar eu pego um ônibus em Parati e pronto.
Abraçaram-se forte – algo parecia morrer naquele instante: era um momento fúnebre, apesar de nenhum deles saber porque.
Por um tempo pequeno ainda avistaram, – pelo retrovisor, – Hugo, em pé, na rua principal, vendo-os afastar.
Uma curva se faz: some Hugo – Trindade fica para trás, mas resistiria em suas mentes para sempre...
Escrito por Nosferatu às 02h26
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Ensaio nº 09 Parte 55
Uma tarde no camping. Luiz Henrique volta do banho e encontra Hugo lendo sob uma árvore:
- Qual é cara!, lendo aqui?...
- Qual o problema?
- Férias...Não dá pra dar um tempo, não?
- Peguei esse livro na casa da tia de Melina – ‘Tô de cara com o escritor...
- Porque?
- Ele é um filósofo russo...russo, cara!; e escreve uma coisas maneras...O nome dele é Nicolai Berdiaiev.
- Nunca ouvi falar...Bicho; vão dar uma volta na vila - ‘tá anoitecendo...
Hugo não se importa com o que ele diz: - Olha só o que o cara escreveu: “Liberdade pressupõe a existência de um princípio espiritual que não é determinado pela natureza nem pela sociedade. Liberdade é um princípio espiritual no ser humano. Quando o ser humano é totalmente dominado pela natureza e pela sociedade nenhuma liberdade é possível”.
- Profundo e inconsciente; Luiz Henrique resolve brincar...
- Você pode gozar, mas tem umas coisas aqui que estão batendo com o que eu ando pensando...
- Levanta; vão'bora – você vai terminar pirado deste jeito...
Luiz Henrique puxa o amigo para cima, ele cede e resolvem dar uma volta.
Escrito por Nosferatu às 02h22
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Ensaio nº 09 Parte 54
Num certo dia, pela manhã, Hugo e Miguel esperam na fila do pão na padaria da vila:
- Bicho, nem parece que passou um mês; você ‘tá sabendo que final desta semana a gente vasa para Vitória...A gente ‘tava pensando em passar por Búzios e ficar uns dois dias lá...O que você acha?
- De repente...
- Qual foi?...Que cara é essa?
- Ah, cara...’Tá passando umas coisas na cabeça...
- Fala...
- ‘Tô a fim de ficar mais um tempo aqui...
- O que?!
- É isso aí...
- Porque?
- Eu não sei ainda o que eu quero fazer da vida...Queria pensar mais um pouco...Vem tanta coisa...Por esses dias então... - Você já pensou nisso?
- Claro!: Eu e o Henrique conversamos sobre isso esses dias; a gente vai se matar de estudar, dar um tempo das baladas para ir para a faculdade.
- Eu sei: esse é o certo – daqui a pouco conhecer alguém, casar, ter filhos, - bem você nem tanto, eu acho, - comprar uma casa ,depois outra na praia, depois outra nas montanhas; aí vem os netos...E por aí vai – até morrer.
- Cara, que drama você está fazendo!...
- Mas não sei se é isto que eu quero. Não é possível que a gente está neste mundo há quase um milhão de anos para fazer sempre a mesma coisa, século após século. Acho que o homem tem algo a mais para fazer.
- Hugo, você está pirando?
- ‘Tô de cara...e muito!, - mas tenho uns dias para pensar...
Escrito por Nosferatu às 22h56
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Ensaio nº 09 Parte 53
Tarde de sol, num bar da vila. Hugo e Luiz Henrique se divertiam com Melina e duas de suas amigas. Uma parecia muito interessada em Luiz Henrique; ele parecia deixar que as coisas fluíssem de uma forma diferente que a usual. Miguel tinha sumido, quando então reaparece:
- Fala aê gente!
- Onde você ‘tava, cara?
- Fomos na Cachoeira dos Codós...Ah!:..Esse é o Vitor.
- Tudo bem?
-Tudo...
- Vai ter um luau no Cachadaço esta noite e nós estamos indo para lá; o Vitor vai levar a barraca dele e amanhã a gente volta...Tudo bem?...
- Claro...
- Falou então...’Té mais...
Silêncio na mesa.
- Bonitinho o amigo dele, né...
- Olho azul...
- Verde!
- Azul, menina você ‘tá cega!...
- Você que é daltônica...
- Vão parar de babaquice!...Deixa o cara!
...
- Eu só queria saber quem é o ativo ali, falou uma delas em tom de fofoca...
- Miguel é que não é...Luiz Henrique pensa alto.
- Como você sabe?, dispara uma das amigas de Melina.
- Raquel!, a gente podia fazer uma fogueira na Praia de Fora, minha tia empresta o som portátil dela...Vai ser um maior barato!
- Nossa! Vou fazer uma salada de frutas...
- Os meninos vão atrás da madeira...
Resolvem pagar a conta e ir em busca da programação combinada; Melina tinha salvo a noite: nesse dia, Luiz Henrique chamaria Raquel para namorar...
Escrito por Nosferatu às 22h55
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Ensaio nº 09 parte 52
Do meio da mata uma luz branca fulgura; o barulho do mato e o aumento da intensidade demonstra que algo se aproximava dele.
A luz se amaina e Hugo vê um grande e majestoso cavalo alado – um pégaso. Imponente, ele se aproxima, colocando-se de lado, abaixando seu torço gentilmente. Ele percebe o desejo do animal de vê-lo montado como que para cavalgar. Sobe então no animal.
O pégaso dá alguns passos e joga-se da plataforma de pedra da cachoeira; o corpo cai por instantes, as asas abrem e o animal alça vôo.
Do alto Hugo vê a costa se afastar aceleradamente, ao mesmo tempo em que vai ganhando altura. Desaparece a terra firme; percebe a curvatura da Terra. Em pouco tempo vê aproximar a costa africana: voa sobre savanas, florestas densas, lagos gigantescos, cataratas fabulosas; ganha de novo o mar. Ao longe avista as ilha de Madagascar, depois as Sheychelles e enfim as Maldivas. Tornando à terra firme, não tardou em ver as luzes da cidade de Masdras. Voando sobre enormidades de terreno inóspito, vê a aproximação Himalaia. O vôo torna-se rente às imensas cadeias de montanhas, entumecidas de neves milenares. Em instantes, sobre uma imensa e deserta planície gelada percebe estar sobrevoando o deserto de Gobi. Ao longe vê uma imensa coluna de luz que, saindo do chão, projeta-se infinitamente para o alto. O pégaso contorna uma cidade formada de quatro quadrados concêntricos de edificações, com quatro grandes torres em suas pontas e mais uma torre menor em cada metade da edificação. No seu centro um enorme edifício circular emitia a luz que ascendia aos céus. Pousa bem longe da cidade. Lá parecia esperar, há tempos, um cisne, um leão e um unicórnio. Deixando-o com os três animais, o pégaso desaparece no céu. Monta no unicórnio e este sai galopando em direção à cidade; o leão - em desabalada carreira - acompanha pela sua direita; o cisne os segue do alto sobre suas cabeças.
Chegando à frente do portão principal, leu sobre ele:
- Shambala...
Uma luz áurea resplandece do portão; um homem sai de dentro dela e aproxima-se tão perto a ponto de tocar-lhe o peito à altura do coração – seu semblante brilhava como aquela luz e suas asas pareciam feitas do mais puro ouro. Com o toque seu peito brilha. De súbito, ele acorda sob os primeiros raios da manhã. Sentia que algo havia mudado.
Escrito por Nosferatu às 00h11
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Ensaio nº 09 parte 51
Na volta da praia, na casa da tia de Melina, Hugo conta o estranho sonho para Ludmila.
- Não é comum isto acontecer...
- O que?...
- É uma região de muita força telúrica, meu querido; não é a mais forte, mas os espíritos naturais da região são bons...Aqui havia índios que adoravam os espíritos da terra, que se colocam em contato com os espíritos do universo...
- E daí?
- Um deles falou com você...
- Muito pouco...
- À noite a região fica mais tranqüila e é mais fácil ouvi-los...Eu sempre procuro conversar com eles à noite... Vá lá e você vai ver...
- Não é perigoso?
- Cansei de ir meu querido...Mas eles demoraram muito mais para conversar comigo...
Um pouco preocupado Hugo se dirige naquela noite para a cachoeira - sozinho.
Já no local, deita-se sobre a pedra e descansa
Escrito por Nosferatu às 00h07
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Ensaio nº 09 Parte 50
Hugo e Melina resolvem ir à Praia Brava; sobem á pé o Morro do Deus me Livre pelo asfalto de acesso à Trindade, entrando, quase no topo do morro, numa trilha à direita – penetram na mata fechada.
Por trilhas bem estreitas vão andando; numa placa descobrem a trilha para a cachoeira. Decidem ir para lá primeiro.
Situada no meio de mata fechada, o rio despenca por pedras sobre outra plataforma de granito. Percebem que dá para tomar banho nela, e o fazem.
Saindo da água Hugo se deita sobre a plataforma, relaxa...
...
- Você quer saber a cura...
Hugo solta um urro; levanta assustado...
- Eu ouvi alguém me fazendo uma pergunta...
- Você teve um pesadelo...
- Mas eu ouvi!...
- Vamos para a praia: andar vai te fazer bem...
A praia é forte em ondas, limitada por dois penedos intransponíveis e a serra à suas costas; à frente o oceano aberto: um pequeno pedaço do paraíso.
- O quê você pretende fazer? Faculdade?
- Sim...De Administração...
- Administração?
- É...Meu pai tem uma empresa e eu vou trabalhar nela...
- É o que você quer?
- Mais ou menos; mas é o que eu tenho que fazer...
- Não agüento isso...
- O quê?
- Você não se preocupa em fazer o que gosta, mas fazer o que é mais conveniente...Você não se preocupa em se realizar...
- Hugo, a gente se forma para ganhar dinheiro e fazer o que gosta...
-...Pagando com a própria vida...Virando prisioneiro de um monte de regras, pessoas babacas; se mascarando para que não saibam o que você realmente pensa...Vale a pena pagar esse preço só para viajar para Europa uma vez por ano?
- Hugo...Você meu querido, é muito idealista – eu acho isso em você um amor – mas a gente tem que ter compromissos...
- Não acho que eu preciso matar minha alma para garantir um monte de coisa supérflua...Eu sinto que eu quero algo...Mas eu não sei o que é ainda. Só sei que não me conformo com esta vida não...Teve uma vez, há muito tempo, que eu olhei através da janela de casa - para o céu - e me perguntei: - meu Deus, porque nasci aqui? Eu já fiz tanta coisa por mim, mas essa pergunta continua: o que eu vim fazer aqui?...
Melina puxou-o para perto de si, com candura, abraçou-o. Fizeram amor e dormiram...
Escrito por Nosferatu às 23h12
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Ensaio nº 09 Parte 49
No outro dia, pela manhã, silêncio no café; conversas triviais.
- Hugo...Vamos dar uma volta?
Luiz Henrique estava tranqüilo, um pouco ressabiado talvez.
- Olha só...Rolou uma onda ontem...Vou te dizer; meu negócio é mulher mesmo...Não gostei não...Foi bom porque eu tirei umas ondas erradas da cabeça...Eu ‘tava muito pirado...Acho que é droga mesmo...Mas o Miguel:...Cara: o sujeito é uma moça, Hugo! O cara se amarrou! Tinha um tom de indignação na sua conversa.
Hugo riu um pouco: a situação era constrangedora, mas cômica.
- Vamos dar uma força ao cara: ele é nosso amigo...
- É foda, mas tudo bem... Eu entendo: do mesmo jeito que eu gosto de mulher, ele gosta de homem; é sacanagem liberar meu lado e barreirar o cara...Agora...Pensei bastante no que você me falou...Eu tenho que dar um tempo do fininho...’Tô fritando...’Tô precisando gostar de alguém mesmo... Valeu ein...’Brigadão, véi...
- Tudo bem...
- Agora...Não conta essa história pra ninguém não...
- Cara...Não sei nem do que você está falando...
Escrito por Nosferatu às 23h11
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