Reprise de um Texto
Evita estava deslumbrante: seus olhos verdes contrastavam com o azul escandaloso daquele céu que nos protegia naquela tarde. O vento soprava célere inundando a atmosfera de movimento e apreensão. O silêncio apenas era quebrado pelos gritos secos - histéricos - das gaivotas que voavam aparvalhadas ao redor dos barcos pesqueiros avistados por nós, de cima do monte, à meia distância.
Seu vestido de seda branco encobria timidamente seus seios firmes que me indicavam, através do tecido, que seu corpo sentia frio – isto me excitava...
O sol mediterrâneo, em início de tarde, invadia todas as dobras e espaços contidos naquele cenário de outono. Nada era excessivo, apenas minha inquietude diante dela, que eu reconhecia, nos mínimos detalhes, que me amava.
O mar plácido parecia estender desde o horizonte límpido até terminar na praia de uma pequena baía, limitada por montes encobertos de vegetação rala de um terreno inóspito; reconfortante, pois assegurava o distanciamento dos aglomerados urbanos.
Meu coração enternecia com o seu sorriso enquanto falava. Sua voz roçava os meus tímpanos, acariciando lentamente.
Do terraço do restaurante, aberto ao tempo, pedi o champanhe, - Laurent-Perrier, - o de sempre há sete anos. Num átimo o garçom retornou com duas taças e a garrafa no gelo. Envolveu-a com um lenço de linho e fez jorrar o líquido.
Uma explosão de bolhas efervescentes transborda das taças num farfalhar delicado; o excesso escorre por entre as frestas da mesa de madeira. O líquido lentamente se assenta. Naquele instante supremo, achei que era feliz.
Sua mão tocou a minha, convidando-me a beber. Meu coração acordou dos devaneios instantâneos e assim percebi, naquele momento eterno, que a amava...
Escrito por Nosferatu às 21h05
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Posfácio a um Conto Recém Terminado
Pensei bastante em como terminar esse conto. Não tive dúvidas em ser essa a melhor maneira de terminá-lo já que a significação dos três personagens ficou bem estabelecida, para mim, em algum momento que eu escrevia.
Os três personagens representam as quatro estâncias do corpo humano: Luiz Henrique representa o corpo físico e o dos desejos; Miguel o corpo mental; e Hugo - o que chega por último – o corpo espiritual. Antes da chegada do Hugo, há um desequilíbrio nos dois personagens: marginalizados pela sociedade, Luiz Henrique entrega-se ao prazer sexual e não quer pensar; Miguel, sem um entendimento transcendente vai-se tornando um déspota assexuado. Hugo libera-se da servidão humana (que há em todos nós, cada um em seu grau e qualidade) e descobre a janela para uma transcendência – inicia então sua ascese. Este processo produz efeitos nas relações entre eles e internamente a eles. Mas toda busca espiritual subentende um afastamento das coisas seculares; assim Hugo - como corpo espiritual – volta-se para a transcendência enquanto Miguel e Luiz Henrique buscam a suas realizações em seus planos (material e mental).
Se os interesses de Hugo e dos outros se tornam divergentes, afastando-os fisicamente, em lembranças eles permanecem unidos. O amor pelo mundo e pelo semelhante que os dois passam a nutrir é a manifestação clara da presença do Criador no corpo espiritual – um resultado e uma causa dele.
Quanto à busca espiritual de Hugo, é claro que foi com Melina – o princípio feminino que faltava para a constituição da dialética cósmica. O caminho que iria trilhar há indícios em seu sonho (que é metafórico e cheio de significações) e na leitura do filósofo. Como à partir daí os caminhos tornam-se singulares para cada peregrino em busca da Verdade, a tentativa de universalização, por meio de palavras, seria pueril. Eu teria que juncionar as vidas de Buda, de João Batista e do Cristo, numa só pessoa, dentro de uma perspectiva do entendimento do Tao. Este pode ser outro projeto, mas preciso de MUITO chão (mais muito mesmo!!!) para realizá-lo.
Escrito por Nosferatu às 00h44
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