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A Vingança de Prometeu
 

Ensaio nº 17 Parte Dois e Final - A 1ª parte está abaixo.

Chega o café em copos americanos. Movimento contínuo, o balconista coloca o açucareiro de plástico transparente à frente – o estado dele era deplorável!

- Não tinha percebido que seus olhos eram verdes...(Está na hora da reunião; foda-se: a gata é um avião...). Ela sorri discretamente; remexe mais uma vez no cabelo – estou ganhando mais pontos...

- Você está indo para a loja?

- Estou...E você?

- Também...’Tô indo trabalhar, mas dá tempo para eu sentar um pouco e conversar. Às vezes dá até tempo de pegar uma fita. Hoje mesmo eu vou ao cinema...

- Que filme ‘tá passando?

- (Ai meu Deus, preciso lembrar de um filme romântico; rápido!). “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”.

- Que nome esquisito!

- É sobre um cara que apagaram as lembranças sobre a namorada dele, mas ele continuou amando sem saber porque...

- Nossa! Que lindo!

- É...O amor é mais forte que qualquer coisa, não acha?

- Como você pode falar disso? Mexe de novo nos cabelos.

- Já amei...

- Terminou? Porque?

- Ela terminou...Achava que ia encontrar alguém melhor.

- Boba ela...

- Também acho...Hoje eu tenho medo de gostar de alguém...

- Porque?

- Sofrer de novo – decepcionar.

- Vai depender de quem você escolher...

- Eu queria uma mulher inteligente, carinhosa, forte, companheira. Alguém que quisesse algo sério.

- E não tem ninguém não?

- Agora eu não sei...

...

- Você gostaria de ir ao cinema comigo?

- Não sei...A gente se conheceu agora à pouco...

- Olha: a gente vai para o shopping, fica conversando, toma um sorvete e aí, de repente, a gente assiste ao filme.

Fez que hesitava: - hum...’Tá legal, você me pega às seis?

- Fechado!

Dois beijinhos bem próximos da boca, uma troca de olhares e cada um vai para o seu lado. Tomei uma advertência por chegar meia hora atrasado na reunião, mas na outra semana eu estaria namorando com a garota do salto quinze...

 

 



 Escrito por Nosferatu às 01h33 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 17 Parte um

 

Três horas da tarde; atravesso uma avenida em meio a uma corredeira de gente sobre a faixa de pedestres. Semáforos, buzinas, ruídos de carros, de motocicletas – calor infernal.

Eu, no meu terno de segunda mão, me estrangulo na gravata de fecho éclair; olho para cima e vejo os pombos metropolitanos sobre os fios de alta tensão deste esgoto que é o centro.

Pressa: vou a uma reunião dos vendedores de enciclopédias – sou um deles - com o gerente da firma; as vendas estão caindo...

Alcanço a calçada; na correria, tropeço; caio no chão. Da sarjeta da rua vislumbro uma perna estonteante sobre um salto quinze.

- Desculpa aê...Não agüento e dou um sorriso maroto. Ela joga o cabelo levemente para trás, suspende o nariz e vira o rosto (ah!, a dissimulação feminina...É o que eu mais gosto...).

Levanto e fico olhando a loura se afastando, balançando os quadris para as laterais; - ela atravessa a rua – eu acompanho com o olhar.

Por um instante fatal a moça olha para trás – nossos olhares se fundem em um amálgama de tensão e desejo. Avanço em sua direção; sinto o medo de longe, transpirando através do tailleur da loja de cosmético próximo à nós – Pierre Alexander...

Atravesso a rua decidido; ela entra em uma lanchonete tipo copo sujo; eu já estou em seu encalço.

- Aê, Manel, me vê um café...Olho para ela – ela abaixa o olhar – remexe a bolsa nervosamente; está também sentada num banco fixo defronte ao balcão do estabelecimento. Paredes sujas, teias de aranhas, um senhor secular do outro lado de nós.

- Você aceita um café também?

- Não tomo café com estranhos...

- Se eu me apresentar não serei mais estranho; muito prazer: meu nome é Maicol. O seu nome é...

- Kelly Cristina...

- Bonito o nome...

- Obrigada, gracejou.

- Você trabalha ali em frente não é?

- Sim, como você sabe?

- A roupa...

- Nossa!, como você é observador!(Achei que já tinha ganho uns pontos – e de uma forma tão simplória...).



 Escrito por Nosferatu às 01h32 [] [envie esta mensagem]



Para um Estranho

 

Walt Whitman

 

Estranho que passas! tu não sabes com que ânsia eu te fito,

Tu deves aquele que eu andava procurando, ou aquela que eu andava procurando

(isso vem a mim como um sonho)

 

Com certeza eu já gozei em algum ponto do mundo uma vida de alegrias contigo,

 

Tu me diz que já cruzamos ombro a ombro, fluidos, ternos, castos, em plena maturação.

 

Tu cresceste comigo, foste um rapaz comigo ou uma moça comigo,

 

Eu já comi e dormi contigo; teu corpo desde então, não pertence somente a si, assim como o meu não ficou pertencendo mais somente a mim.

 

Quando passamos um pelo outro, tu me dás o prazer de teus olhos, do teu rosto, da tua carne, e eu retribuo com o prazer do meu peito, das minhas mãos ,da minha barba.

 

Eu não quero falar contigo, eu gosto é de pensar em ti quando estou sentado sozinho, ou acordado à noite sozinho.

 

Eu te esperarei, não tenho dúvida alguma de que vou te encontrar ainda.

 

E terei cuidado dessa vez para que não te perca.

 

 

 

 

 



 Escrito por Nosferatu às 17h01 [] [envie esta mensagem]