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A Vingança de Prometeu
 

Ensaio nº 19 * Parte C (as partes A e B estão abaixo)

- Pois é...Lembra que eu te falei que eu ia a São Paulo? Pois é: eu voltei ontem...Eu te liguei umas três vezes; deixei recado...

- Ah!, aqui em casa é uma loucura...Puxa, eu até comecei a ler o livro que você me indicou...

- Foi O Vermelho e o Negro, do Sthendal, não foi?

- Foi...

- Está gostando?

- Adorando...

- Eu amei aquele poema que você estava escrevendo...Nunca pensei que fosse encontrar alguém tão legal em uma livraria...

- A gente se engana...Mas para quem vai pouco a uma livraria, você lê bastante.

- Só os livros da aula de português...

- E você acha que é pouco? Eu acho o Machado de Assis um dos maiores escritores que conheço; mas vamos mudar de assunto: eu te liguei para te convidar para um grupo de leitura, que se reúne todas as quintas, na livraria. Eu vou ler um texto do André Gide amanhã.

- Nossa! Eu adoraria!

- ‘Tá combinado então? Eu posso passar na sua casa amanhã às 15:30?; ‘tá bom para você?

- Está, eu te espero...

- Um beijo...

- Outro...Olha, eu adorei você ter me ligado.

- Eu gostei muito de ter te conhecido. Pensei muito em você, - nessa viagem, – na conversa que a gente teve...A tarde voou, lembra?

- Claro...

- Amanhã a gente se vê.

- Certo.

- Alô; Flávio!; minha mãe está me chamando para ir ao supermercado com ela; a gente se fala outra hora...

- Mas gata, eu nem falei direito com você...

- Ah, Flávio...A gente tem tempo para conversar...Tchau querido, – eu preciso ir...

Acaba a ligação.



 Escrito por Nosferatu às 02h55 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 19 * Parte B ( a parte A está abaixo)

- Pera aí...

- Renata, é Paulo Otávio; a aê?; vamos para praia este final de semana? De novo?

- Paulo Otávio! – você ficou no jet ski o final de semana todo e além do mais, seus pais são muito chatos!

- Ah, minha linda... Eles não vão estar lá não; eu pensei na gente fazendo um fondue à noite...Só nós dois...

Silêncio.

- Nossa, ia ser lindo!...Mas você espera eu te ligar? Eu tenho que ver se eu não vou viajar com meus pais...

- ‘Tá; um beijão.

- Outro.

- Flávio, sou eu; essa conversa a gente já teve tantas vezes...

- Eu te juro! Eu mudei; estou até fazendo análise – minha mãe achou que eu estava precisando...

Outro silêncio.

- Eu tenho que pensar Flávio...Espera aí que tem outra ligação...

- Renata; é Rodrigo...

- Eu sei...

- Poxa, gata, passei aí sábado, na sua casa e você tinha saído...A gente tinha combinado...

- Olha Rodrigo: eu não estou numa fase boa, sabe? Eu estou pensando muitas coisas sobre minha vida...’Tá muito difícil, sabe? Dá um tempinho , meu querido...

 Mas Renata...

- Querido, me liga amanhã – eu estou de saída: minha tia já está me esperando na portaria...

- ‘Tá, tudo bem: eu te ligo amanhã...

- Tudo bem; um abraço.

- Um beijo.

- Flavio, sou eu...Meu lindo, eu estou muito satisfeita de te ver se cuidando. Eu sempre achei que você devia mesmo fazer análise, sabe?

- Pois é gata...Eu “to afim de mudar; eu já sinto que estou mudando...

- Gente!; esse telefone não pára! ‘Pera aí de novo...

- Boa tarde; eu queria falar com Renata.

- É ela...

- Tudo bem? Aqui quem fala é o Márcio Jr, da livraria...

- Márcio!...Você ficou de me ligar...Há quanto tempo...



 Escrito por Nosferatu às 02h54 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 19 * Parte A

Quarta à tarde, num apartamento, o telefone toca:

- Renata?

- Sim.

- É Flávio...Fala minha gata; e aê?, vamos ao cinema sábado?; está passando Cold Mountain de novo...

- Sabe o que é, Flávio?: eu tenho que estudar para prova...Você sabe que eu adoro este filme...’Pera um instantinho que tem outra ligação na linha...

- Renata, é Cláudio; e aê?; vão fazer um pedal, no final de semana?

- Quando!?

- No sábado...

Ah!, Cláudio; bicicleta de novo...

- Aí a gente vai até a torre de TV - o visual é manero...

- Olha, me liga amanhã; eu tenho que ver umas coisas em casa...Você sabe que eu te adoro, né?

- ‘Tá legal, gata; um beijo.

- Outro; tchau.

- Oi, sou eu; sabe Flávio, você é muito imprevisível: acha que eu estou sempre pronta para você: no sábado você passou aqui e me carregou para o shopping sem me ligar antes para saber se eu queria ir...

- Ah, gata...Eu ‘tava doido para te ver...Está tão difícil a gente se encontrar...

- Eu sei querido, mas...’Pera aí que tem outra ligação...

- Renata, é Eduardo, – da sua sala; – Fernanda me falou que você está precisando passar em história; se você quiser, no sábado eu estudo com você...

- Eduardo, você é uma gracinha, mas minha avó está no hospital – tadinha! – e eu preciso dar atenção a ela; se ela tiver alta até sexta...Eu te ligo meu lindo; você foi muito gentil...

- Tudo bem – me liga.

- ‘Tá; um beijão grande.

- Outro.

- Fala Flávio; olha, a gente já namorou e eu não agüentei o seu ciúme.

- Gata...Vai ser diferente agora; eu melhorei, sabia? Eu queria conversar com você.

- Eu não sei...Ai meu Deus!: outra ligação...

- Que saco!



 Escrito por Nosferatu às 02h53 [] [envie esta mensagem]



Ensaio nº 18

 

Fazia duas semanas que Eunice trabalhava naquela casa de chá. Quando pequena – que com a família visitava o shopping – sonhava trabalhar naquele lugar. Se via como garçonete do Subway, balconista da C&A ou da sorveteria do MacDonald’s...Era, para ela, a própria Disneyworld  em cores, fantasia e diversão. Agora estava lá; havia alcançado seu sonho dourado: trabalhar no shopping da cidade! Estava, com razão, toda orgulhosa de sí.

Porém, a rotina diária do estabelecimento, mostrou-lhe uma realidade até então intangível: passou a se dar conta de um outro mundo que, da altura de seus dezoito anos, acreditava apenas existir no universo mágico da televisão: a clientela - senhoras vestidas em seda, sobre sapatos fechados de salto alto, cabelos armados, adornadas com uma infinidade de jóias deslumbrantes que brilhavam como o sol em meio a tantos outros brilhos de pedrarias que não acreditava poderem existir.

Adentravam à casa sempre depois das 17 horas para chás e biscoitos – finíssimos, que a casa fabricava – com amigas que se reuniam para o regozijo de suas almas atarefadas por horários com cabeleireiros, veterinários para seus cãezinhos, viagens ao exterior.

A decoração sofisticada ganhava dimensões assustadoramente aristocráticas com as clientes envoltas em uma aura de contenção esnobe e elegância – a altivez da postura era imperativa em todas:

- Você acredita que ela achava que a Faubourg Saint Honoré era a mesma rua que a Saint Honoré? Ela levou mais de meia hora para chegar na Chanel – tadinha: ela é muito desligada...

...

- Milão está um escândalo: a coleção primavera-verão...Eu quase comprei a Dolce-Gabanna inteira!

...

- Gente, eu quase morri quando ela sumiu na Eurodisney...Vocês não sabem pelo que eu passei...

...

Vez por outra uma jovem – porque casada recentemente – se permitia estar àquelas rodas como que num rito de passagem. Discretas, sentavam-se com suave modernidade – implícitas em suas roupas: o jeans da Diesel, encimando um par de escarpins em couro de avestruz, sempre importado...

Eventualmente crianças – alvas como a neve – em roupas multicoloridas, pululavam à volta de suas avós, com guloseimas de chocolate derretendo em suas mãozinhas tolas.

Aos poucos as diferenças foram marcando sua vida: na volta para sua casa, a sua realidade escandia o mundo de sonhos que era seu trabalho. Esta não ficava aparente para as freqüentadoras, pois sua patroa tratava de mantê-la com uniformes impecáveis e maquilagem suficiente para esconder a pele marcada pela vida rústica e pobre.

Porque o mundo tinha que ser assim?, pensava.

A inveja, a raiva, a revolta foram crescendo em sua alma; as diferenças foram se tornando insustentáveis até que – em momento pensado, em meio a uma festinha vespertina – não pensou duas vezes: envenenou o suco de mangustão sem dó nem piedade.

No outro dia, todos os jornais comentavam:”...e a autora do crime diz não ter havido motivações para tamanha tragédia...”

O mundo – indiferente ao acontecimento – continuou a girar impassivelmente, como que sem sentido...

 



 Escrito por Nosferatu às 21h20 [] [envie esta mensagem]